História

O jornalismo de guerra em HQs

Amigos,

Na última sexta-feira (24), Emerson Jambelli, ex-aluno da PUC-Campinas, voltou à faculdade para falar sobre o seu  Projeto Experimental “Duas guerras, dois livros”. Feito há dois anos, o estudo se trata de uma análise comparativa entre “O gosto da guerra”, de José Hamilton Ribeiro, e “Dias de inferno na Síria”, de Klester Cavalcanti. Mas e se, enquanto alguns escolhem o texto, a fotografia ou o vídeo para contar histórias de guerra, nós uníssemos a paixão pela profissão e pelo desenho

Imagine poder escolher entre relatos cheios de números e datas e relatos humanizados que contam a história do ponto de vista de pessoas comuns. Para completar, imagine poder contar com cenários e imagens daquela época nesses relatos humanizados. Imaginou? Pois é assim que você se sente quando está diante dos livros de Joe Sacco, jornalista que criou o chamado “jornalismo em quadrinhos”, uma outra maneira de informar.

Joe Sacco e a sua versão em HQ

Joe Sacco e a sua versão em HQ (Foto: divulgação)

Ele nasceu em Malta e vive nos EUA desde a adolescência. Sacco começou desenhando quadrinhos satíricos, mas logo percebeu que podia contar histórias de conflitos, como o que acontecia entre palestinos e israelenses no Oriente Médio. No começo, a principal barreira a ser quebrada pelo jornalista foi o preconceito dos vários editores que não encaravam com seriedade as grandes reportagens na linguagem das HQs. Hoje, a obra de Joe Sacco consegue ser mais convincente do que muita fotografia ou matéria de jornal.

(Foto: divulgação)

(Foto: divulgação)

Para Sacco, a linguagem dos quadrinhos permite que o leitor entenda todo o contexto dos acontecimentos. Inclusive, pessoas é o foco do jornalista, já que ele precisa investigá-las para que consiga dar voz os personagens afetados pela guerra. Por documentar o conflito entre Israel e Palestina e a guerra na Bósnia, Joe Sacco recebeu diversos prêmios. Entre eles estão o Prêmio Eisner e o American Book Award, pelas obras “Área de Segurança Gorazde” e “Palestina”, respectivamente.

(Foto: divulgação)

(Foto: divulgação)

Em seus livros, o autor conta a realidade, e não a ficção. Mostra vários aspectos dos lugares que visitou e retrata desde guerrilheiros até jovens que querem apenas um pouco de diversão. O próprio Joe Sacco é personagem de suas ilustrações, pois, como repórter, acredita que não pode se excluir do contexto. Ler Joe Sacco é não só uma nova experiência literária, mas também uma aula de história, ambas diferentes de qualquer coisa que você já tenha lido.

Em 2011, o jornalista veio ao Brasil e participou da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro. Assista a entrevista que ele concedeu ao SaraivaConteúdo, no “Especial FLIP” do canal no YouTube:

 

BOA LEITURA!!! 😉

Anúncios

Perfil biográfico X Biografia

Amigos,

Vocês gostam de histórias? Há inúmeras maneiras de escrevê-las, mas vocês imaginam alguma sem personagens? Não, certo? Nenhuma história pode existir sem personagem. As formas de apresentar e caracterizar os protagonistas também são variadas, mas hoje falaremos sobre duas delas: o perfil biográfico e a biografia. Normalmente, esse tipo de texto cativa a maioria dos leitores porque, por meio dele, é possível descobrir informações curiosíssimas sobre a vida das pessoas. Apesar de muitas obras biográficas poderem ser comparadas a romances, de tão incomum e interessante que possa ter sido a vida do personagem, o gênero biográfico trata de narrativas não ficcionais.

Como vocês sabem, a polêmica sobre as biografias voltou a ser debatida no ano passado, quando a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 393/11, a chamada Lei das Biografias, que modifica o Código Civil e libera a publicação de “imagens, escritos e informações” biográficas de personalidades públicas, sem necessidade de autorização. Como diria o jornalista e escritor Ruy Castro, “O biografado dos sonhos precisa ser… filho único, órfão, solteirão, estéril e brocha – única maneira de o biógrafo ficar a salvo de encrencas”.

Ruy Catro conversou com muitas pessoas próximas de seu biografado, Garrincha. Citou todos se seção "Agradecimentos", mas não escapou de um processo (Foto: Divulgação)

Ruy Catro conversou com muitas pessoas próximas de seu biografado Garrincha e, mesmo tendo citado todos em “Agradecimentos”, não escapou de um processo (Foto: Divulgação)

Mas o perfil biográfico e a biografia são a mesma coisa?

Não. Ambos são narrativas sobre uma pessoa, com descrições, histórias de vida e relatos. Porém, há diferenças. Sérgio Vilas Boas, no livro “Perfis – e como escrevê-los” , diz que, enquanto nas biografias os autores têm que abordar os detalhes da história do biografado, nos perfis podem focalizar apenas alguns momentos da vida da pessoa. É uma narrativa curta tanto no tamanho do texto quanto no tempo de validade de algumas informações e interpretações do repórter. Já a biografia é um trabalho de pesquisa, que geralmente exige do biógrafo dedicação e pesquisa detalhista sobre a vida e a obra da personagem biografada.

Outra diferença é que o perfil é preferencialmente sobre vivos e a biografia é escrita, na maioria das vezes, sobre personagens que já morreram. Além disso, no processo de apuração e escrita de perfis, a relação entre o escritor e o perfilado é fundamental. O repórter precisa tornar-se íntimo. Deve-se levar em conta a importância, a essência, o momento, as opiniões e os episódios da vida do perfilado e também as percepções do próprio escritor que o acompanhou.

Gay Talese, estilo próprio nas roupas e na escrita

Gay Talese, estilo próprio nas roupas e na escrita

Gay Talese, por exemplo, é famoso por escrever perfis marcantes. O “Frank Sinatra está resfriado”, publicado em 1966 na revista “Esquire” e também presente em “Fama e Anonimato”, foi escrito sem o jornalista fazer uma entrevista sequer com o perfilado. Apesar de Talese não conseguir falar com Sinatra, ouviu dezenas de pessoas ligadas ao cantor e, através de depoimentos e observações, criou um perfil inédito do famoso. Em 2003, a “Esquire” republicou o perfil por considerá-lo o melhor da revista em 70 anos. Leia aqui o texto em português.

Edição de abril de 1966 da revista Esquire

Edição de abril de 1966 da revista Esquire

“Histórias bem escritas sempre terão leitores”, garante Talese. Veja a entrevista concedida à “TV Folha” em 2012:

 

Portanto, se você tem dificuldades na hora de escrever um perfil, isso é absolutamente normal. O processo de escrita foi doloroso até pra Talese. Em uma das passagens de “Vida de Escritor”, ele define escrever como “dirigir um caminhão à noite sem farol, perder o caminho e passar uma década em um buraco”. Inclusive, muitas de suas reportagens acabaram não conseguindo espaço em jornais e revistas por causa do grande tempo de apuração e finalização. Por isso são mais de dez livros publicados.  Ao contrário de outros autores do jornalismo literário, Talese não escreveu livros de ficção.

 

-> DICA DE LIVRO 😉

6374_1_20140801150221PERFIS: O MUNDO DOS OUTROS (Editora Manole, 2014) – “Perfis: o Mundo dos Outros”, do jornalista Sergio Vilas-Boas, reúne 22 perfis e um ensaio sobre o gênero perfil, publicados por próprio jornalista entre 1999 e 2014, em jornais, revistas e sites. Dentre os nomes, Jayme Sirotsky (empresário), Mara Salles (chef do restaurante Tordesilhas), Jaqueline Ortolan (comandante de jatos da TAM) e o ornitólogo Johan Dalgas Frisch. Entre os famosos, o ex-jogador Tostão, os escritores Paul Auster, João Ubaldo Ribeiro, Lya Luft, Gabriel García Márquez, entre outros. O livro se destina a estudantes de jornalismo e também ao público em geral interessados nos perfis apresentados.

 

BOA LEITURA!!! 🙂