Caríssima Eliana

Amigos,

No post de hoje, proponho-lhes uma disputa: HARD NEWS versus LITERÁRIO. Em qual deles você aposta as suas fichas?

As regras do jogo são bem simples: dois textos do mesmo jornal, O Estado de São Paulo, ambos sobre a  inauguração da loja Daslu, em junho de 2005.

Que o jogo comece! 🙂

TEXTO 1 – HARD NEWS – A Daslu inaugura a sua nova loja em SP

Eliana Tranchesi inaugura Daslu ao lado de Geraldo Alckmin (Foto: Divulgação)

Eliana Tranchesi inaugura Daslu ao lado de Geraldo Alckmin (Foto: Divulgação)

TEXTO 2 – JORNALISMO LITERÁRIO –

Abre as portas a nova Daslu

Fred Melo Paiva / 12 de junho de 2005

A senhora já deve ter visto a gente. Estamos aqui embaixo. Se olhar da janela em direção à Rua Funchal, vai ver um beco comprido. Se subir no heliporto da loja, vai reparar nos nossos telhados. É tudo meio disforme, uma casinha se escorando na outra, que é para não desabar. A gente quase não usa tijolo nem cimento – só um ou outro mais afortunado é que conseguiu levantar uma parede, bater a laje, fazer um reboco. A maioria de nós, como a senhora pode ver, preferiu usar madeira – quer dizer, pedaço de pau e chapa de compensado. Se a senhora consegue ver direitinho aí de cima, vai achar que a gente é bem porco. Isso porque o nosso beco está sempre meio molhado, uma água suja que corre no meio da rua. Mas, olha, não é culpa nossa não. A gente é pobre mas é limpinho. O problema é que aqui não tem rede de esgoto e são mais de 200 barracos, espalhados pelo beco, e mais oito vielas. Já viu a merda que isso dá, né? A senhora deve estar estranhando a quantidade de fio que sai daquele poste e se divide em vários outros, interligando tudo. É gato, menina. Tudo gato. E tem cachorro também. A senhora consegue ver aquele pit bull branco? É o Dólar. E o rottweiller? É o Fidel. Agora veja só que confusão: gato com cachorro, pit bull com criança, o esgoto passando no meio, música alta, vizinho fazendo churrasco na viela, todo mundo na rua em pleno dia de semana. Pois é. Isso aqui tem nome. Chama favela. E a gente gostaria de apresentar ela à senhora como uma forma de lhe dar as boas-vindas: Eliana Tranchesi, favela. Favela, Eliana Tranchesi.

A gente sabe que quando a senhora abriu a sua loja a senhora fez um tour com o pessoal para apresentar o prédio. A senhora, não – a filha do governador. Então a gente vai fazer um tour com a senhora aqui na favela. Faça o seguinte: desça daí e venha de a pé. O nosso beco chama Rua Coliseu e é a primeira à direita depois da porta da Daslu. Bem na esquina, a senhora vai encontrar o Genivaldo Francisco, o Geninho. O Geninho é tomador de conta dos carros que ele estaciona no beco. As vagas são todas dele, e é por isso que ele possui um cone sempre à mão. Ele tem 44 anos e mora na favela há 36. Fica o dia inteiro sentado numa cadeira preta bem na entradinha da favela. Diz ele que na loja da senhora “só entra grã-fino, só carrão, BMW etc. e tal”. É que ele tá ali, sempre de olho. “O pessoal não é fraco, não”, ele fala. A senhora não vai ter problemas para identificar o Geninho. Ele só anda bem arrumado, sempre na estica. A senhora, que gosta de moda, pode até puxar conversa. Ele vai explicar para a senhora que gosta mesmo é de camisa social. E que está sempre de gravata “porque o pessoal que estaciona comigo é de um nível um pouco elevado”. O Geninho tem uma particularidade. Ele sabe essa história do Coliseu, que vem a ser o nome da nossa rua: “Diz que tinha um Coliseu lá nos Estados Unidos, ou por aí afora. Segundo eu tô sabendo, era onde eles pegavam uns evangélicos e davam para os leões. Isso se eu não estiver equivocado…”

O Geninho, senhora, o Geninho era “mindingo”. Foi viciado em crack durante dez anos. Daí, diz ele, “Deus me tirou do lamaçal do pecado, da pinga, da maconha”. Isso foi há sete anos, e portanto a senhora pode ficar tranqüila que o Geninho é igual o Fidel: ele não morde. Então pode ir entrando. À sua direita, logo na entrada do beco, tem uma barraquinha de pastel. R$ 1,30, e a senhora ganha um copo de suco de maracujá. Pode comer, que a gente garante. Porque a gente soube que no dia da inauguração da sua loja a senhora serviu uma comida lá que caiu meio estranha – parece que deu uma caganeira nos garçons, não foi isso? Pois é, aqui a senhora pode mandar ver o pastel do seu Venuto. Depois a senhora conta pra gente.

Vem vindo, senhora, vem vindo. Pode chafurdar o seu saltinho na lama que não tem nada, não. A próxima parada é o bar do Assis, à sua direita. (Aqui tudo fica à direita, porque à esquerda tem um muro que vai de ponta a ponta.) O Assis é o seguinte: Assis Monteiro da Silva, 47 anos, 25 de favela, 18 de boteco. “Quando eu cheguei aqui, era tudo alcalipto, tudo mango. Aqui bem no meio tinha um rio, e pra passar a gente punha umas tauba. Pra fazer os barraco aqui, nós é que aterremo tudo. Quando chovia, ih, mano…” Eu vou traduzir para a senhora. Alcalipto é eucalipto; mango é mangue; tauba é tábua; aterremo é aterramos. Agora, a gente soube que na loja da senhora tem um “Daslu Gym”, uma “Niketown” e um “dermocenter”. A gente também deu uma olhadinha na revista da sua loja, que um repórter trouxe aqui. Tem um negócio assim: “Getty girlie. Acessórios delirantes, desejos necessários e pequenos anseios femininos. Tudo é must have, sonho de wardrobe“. Tem uma outra: “Soup works. O melhor diner d hiver começa com um bom consommé. A seguir, composições ideais para uma entrée superbe”. Depois a senhora traduz pra gente, tá?

Quando a senhora encontrar o Assis (ele está sempre de bermuda e tem uma barriga grande), pergunta para ele como era a Daslu: “Aí agora onde tem o shopping, aí era uma lagoa, mano. Nós peguemo muito preá aí nessa Daslu, muito calango, umas abóbora grande. No tempo que a gente não tinha o que comer, comia os preá e os calango. Era legal, mano, era muito legal”. A senhora vai devagar com o Assis, porque ele tem umas idéias aí. “Eu tinha curiosidade de entrar aí nessa Daslu. Mas eu nunca entrei nem pode nóis entrar. Quando eu fico sabendo que tem lá um casaco de R$ 50 mil, lógico que dá uma revolta em nós tudo que é pobre. Porque a gente não arruma porra nenhuma, né, véio? E aí tem um casaco que custa o preço do nosso barraco? De tanto helicóptero, no dia da inauguração isso aqui parecia mais aeroporto. Pousava um, vinha outro; saía o outro, chegava um. O Brasil é assim mesmo.” Olha, a senhora desculpa essas idéias aí do Assis – afinal, entre um e outro preá, ele já consumiu alguma coisa lá na Daslu.

Pois é. A propósito dessa revolta aí que algumas pessoas sentem, a gente viu uma entrevista da senhora que tocou muito a gente. A senhora disse que a nossa elite está mudando, que está muito mais consciente da situação do País. A senhora disse também que o exemplo que a senhora dá é muito bom. A gente achou isso maravilhoso. Mas a gente reparou uma coisa, que eu vou te falar… parece até coisa de jornalista. Antes de cada pergunta, aparecia uma sigla: CC, de CartaCapital, a revista que entrevistou a senhora. Antes das suas respostas, aparecia outra sigla: ET. A gente sabe que é da senhora, Eliana Tranchesi. Mas fica parecendo que a senhora é de outro mundo…

A senhora é do mesmo mundo que a gente. Quer ver? Tá lá na entrevista: a senhora não estudou sociologia porque o pai da senhora tinha medo da senhora ser presa. E a senhora acredita que aqui na nossa favela tinha uma mulher que estava presa? Presa de verdade. É por isso que a senhora tem de apertar o passo e vir aqui no fundo do beco – a Fernanda acaba de ser libertada, saiu ontem em liberdade condicional. Então tá rolando um churrasco de “capa de filé com filé miau, salada de alface e maionese”. A senhora já ouviu falar na Fernanda. Fernanda Maria de Jesus, a Miss Penitenciária, eleita em novembro do ano passado. Ela cumpriu três anos de cadeia e não foi porque estudou sociologia. Foi tráfico mesmo, o que não deixa de ser isso aí.

A Fernanda é um dos 17 filhos da dona Amazina Maria de Jesus, de 63 anos, a moradora mais antiga da Favela Funchal – “veve aqui há 42 anos”. “Quando eu cheguei da Bahia, aqui tinha matagal e cobra. Não tinha luz e a gente usava lampião. Os caminhões de entulho jogavam lixo. Aí a gente limpou tudo e o meu marido construiu um barraco de madeira. Aí pegou fogo no barraco – nuns 40 barracos. A gente construiu outro.” O barraco da dona Amazina é um clássico aqui da favela: dois quartos embaixo, dois em cima e um banheiro. Dona Amazina, que ainda não sabe se o nome dela é com s ou com z, trabalhou sempre na faxina. É muito comum por aqui, da mesma forma que é muito comum o pessoal que trabalha na construção civil. A senhora sabia que 40 pessoas da favela trabalharam nas obras da Daslu? Quarenta dasluzetos.

Dos 17 filhos da dona Amazina, a senhora acredita que já morreram quatro? Não foi tiro nem foi droga – foi doença. A Marisete, que é uma das filhas dela, tem um barraco no fundo do beco. Nasceu na favela há 40 anos. Não nasceu no hospital – nasceu na favela em dia de chuva, “a parteira com a água batendo na altura do peito”. Marisete é a fazedora de churrasco, a promotora das noites de bingo, a dona do boteco mais festejado da favela. Ela jura que aqui embaixo é melhor do que aí em cima. Diz ela que “nós somos mais felizes porque a gente sai e faz o que quer”. Não sei se é o caso da senhora, mas diz a Marisete que vocês só “ficam presos dentro de casa ou dentro do carro”. Por falar em ficar preso, a Fernanda – a que foi Miss Penitenciária -, ela tem uma opinião sobre a arquitetura da Daslu. A gente achou importante falar para a senhora porque a Fernanda sabe muito bem do que está falando. Então não vá tomar a gente como mau vizinho. Mas a Fernanda acha que o prédio da Daslu “parece um pavilhão de cadeia, meio sinistro”. Agora, o pavilhão da senhora é dez, viu?

“Eu enxergo essa construção como uma hipocrisia. Como podem fazer uma coisa com tanto luxo, tanta grandeza, tanto dinheiro? Será que isso não constrange? Esses dois mundos separados só pelo muro, e nosso presidente não faz nada? Você tem que ter uma cabeça muito boa para dizer ‘aquilo não me pertence’. Você sabe o que é trabalhar o mês inteiro e não suprir o alimento da casa? Sabe o que é trabalhar com fome? O governador entrou lá. Por que não entrou aqui?”

Ih, senhora, a irmã da Marisete, a Rosana, parece que tem as mesmas idéias do Assis. Liga, não. Se aprochegue aí no churrasquinho da Fernanda. Espero que a senhora tenha gostado da nossa casa. Se precisar de alguma coisa, tamo aqui embaixo. É só a senhora chamar.

Depois da inauguração para convidados no fim de semana passado, a nova Daslu foi aberta ao público. Às 10 horas da manhã, havia apenas uma discreta fila de carros na entrada da loja. No fim do dia, grifes como Louis Vuitton já registravam boas vendas.

*

E aí? Já tem um texto preferido?

Vota aqui embaixo! 😉

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O pescador sem rio e sem letras

Amigos,

Para a alegria de todos e felicidade geral da nação, o JORLITERATURA está de volta! Agora você já pode incluí-lo nas suas leituras semanais! 🙂

O primeiro post do ano traz um dos grandes nomes do jornalismo literário atual: Eliane Brum. Com a ajuda do fotógrafo Lilo Clareto, neste texto publicado há um mês no El País, a jornalista brasileira conta um dos capítulos da história de construção da Usina de Belo Monte, no Pará.

Você quer saber como é enfrentar advogados de uma obra bilionária sem sequer saber ler? Como é ficar à margem de si mesmo? A história é de Otávio das Chagas e da sua família.

Otávio das Chagas, o pescador (Foto: Lilo Clareto - Divulgação)

Otávio das Chagas, o pescador (Foto: Lilo Clareto – Divulgação)

“Otávio das Chagas tornou-se um não ser. A hidrelétrica de Belo Monte o reduziu a um pescador sem rio, um pescador que não pesca, um pescador sem remos e sem canoa. A ilha do amazônico Xingu, no Pará, onde cresceu, amou Maria e teve nove filhos não existe mais. Entre ele e o peixe não há mais nada.” (Leia aqui)

Boa leitura!!!

 

Teste seu conhecimento!

Saudações, Jornalistas!
Chegou a hora de testar o que já aprenderam em Jornalismo Literário, sobre o primeiro eixo didático-pedagógico. Leiam as perguntas e desenvolvam suas respostas nos comentários. Completem o pensamento um do outro, façam réplicas, tréplicas, enfim, a intenção é participar! Boa sorte e bom aprendizado!

  1. quiz-cg-volume1-298Quais os autores que mais influenciaram as discussões sobre o tema Jornalismo Literário e por que citá-los?
  2. Em termos gerais, no que consiste o manifesto do Novo Jornalismo?
  3. Em que contexto o jornalismo literário consegue aparecer mais? Qual era sua proposta?
  4. Considerando alguns exemplos, as reportagens que se tornaram livros de repórteres norte-americanos, indique e explique ao menos três características semelhantes entre eles.
  5. Com relação aos teóricos, há alguns usos de método científico das ciências sociais trazido para os textos dos jornalistas. Qual seria esse método e no que ele consiste?
  6. Procure exemplos na mídia de uma construção cena a cena.
  7. Comente o que aprendeu de novo nesse primeiro eixo.

 

Então, a partir de agora, está valendo! Mãos à obra!

A tragédia de Felipe Klein

Texto vencedor do Prêmio Esso de Jornalismo, em 2004, na categoria “Prêmio Esso de Reportagem”

Renan Antunes de Oliveira

Ele tinha tudo para ser feliz. Juventude, saúde, talento, dinheiro, o amor de belas garotas. Mas Felipe construiu para si um mundo dark e animal. Tatuou demônios no peito – e foi vencido por eles.

Na noite do sábado 17 de abril, um corpo de aparência incomum foi levado pela polícia ao necrotério da Avenida Ipiranga. Tinha du

as protuberâncias esquisitas na testa. O médico-legista abriu o couro cabeludo, abaixou a pele até o nariz e se deparou com algo muito raro: dois chifres implantados na carne, feitos de teflon. Cada um era quase do tamanho de uma barra de chocolate Prestígio.

O cadáver estava todinho tatuado. Trazia argolas de metal nos genitais, mamilos, lábios, nariz e nas orelhas – e estas tinham orifícios da largura de um dedo.

De entre os chifres saíam três pinos metálicos pontiagudos. A língua fora alterada: cortada ao meio e já cicatrizada, parecia a de um lagarto.

É claro que Felipe Augusto Klein, morto aos 20 anos, nem sempre teve uma aparência assim.

Nasceu uma criança saudável. Era o caçula dos cinco filhos do casal Lili e Odacir – o pai é um político influente, quatro vezes deputado federal, ministro de FHC e secretário estadual da Agricultura do governo Germano Rigotto.

Fotos de Felipe no álbum da família mostram a criança típica da classe privilegiada: um menino de cachinhos loiros, olhos azuis, bochechudo, limpo, bem vestido – e, às vezes, sorridente.

Foi na adolescência que ele começou a se mutilar com tatuagens, cirurgias e implantes. Pouco antes de morrer preparava-se para botar nas costas uma pele de lagarto e rasgar sulcos no rosto, para pintar neles uma máscara dos maoris, nativos daNova Zelândia.

Em sua curta vida Felipe radicalizou em ‘body modification’, a expressão inglesa dos adeptos de mudanças corporais. Nos últimos três anos, todo mês gravou alguma figura nova no corpo, ou se aplicou algum piercing. Para combater as dores provocadas por agulhas e bisturis ele se automedicava.

As dores físicas eram fichinha se comparadas ao espírito atormentado de Felipe. A mãe, as duas últimas namoradas e os dois amigos mais próximos o descreveram como um jovem patologicamente sensível a tudo que o rodeava – e em especial, ao alcoolismo do pai.

‘Eu não sou desse mundo’ era sua frase predileta. Felipe disse que se sentia assim para dona Lili, para Helena, seu grande amor, para Karen, sua última namorada, para Cristiano e Xande, dois tatuadores tão amigos que cada um segurou uma alça do caixão, e para Virgínia, uma amiga que foi ao enterro chorar com a família.

Não dá para saber quando foi que ele começou a se sentir desse jeito. A mãe contou que ‘cedo’ a família percebeu nele ‘alguma coisa diferente’. Por isso, ‘desde pequeno recebeu tratamento psicológico’. Nos dois últimos anos esteve ‘sob o controle de um psiquiatra’.

Os médicos diagnosticaram um mal que surge na adolescência. O ‘transtorno afetivo bipolar’, ou ‘psicose maníaco-depressiva’. Felipe vivia na gangorra entre depressão e euforia, quase sempre no lado da baixa. Era tratado com um coquetel de antidepressivos.

Na literatura médica, a origem do mal é incerta. Pode ser genética, ou despertada por um trauma. O certo é que ‘ele nunca foi uma criança feliz’, afirmou a mãe. Ela não sabe explicar como, entre seus cinco filhos, apenas Felipe teve a sina. ‘O mundo dele era seu quarto e seus bichos, não gostava de jogar futebol, nem de sair’.

Felipe passou a infância em Brasília, onde seu divertimento era colecionar gnomos, seres imaginários de uma lenda nórdica. Na adolescência, já em Porto Alegre, onde terminou o secundário no Colégio Sevigné, aumentaram seus sintomas depressivos.

Por alguns meses fez parte da tribo urbana dos góticos, jovens que se vestem de negro, assumem um ar deprê e desprezam o resto da sociedade – mas se afastou deles porque o pessoal o considerava excessivamente… gótico.

Quando saiu dessa tribo de humanos, ele se voltou mais ainda para seus bichos. Passava dias trancado no confortável quarto que ocupava no amplo apê da família, no edifício El Greco, onde morava com a mãe, uma tia e mais de 20 animais.

No seu minizôo tinha gatos com pedigree, cobras importadas, filhotes de jacaré, tartarugas e lagartos. ‘Ele gostava mais de animais do que de gente’, contou Helena, citando outra frase ouvida dele. Tal paixão o levou a estudar Veterinária na Ulbra, mas logo se desinteressou.

Paixão permanente só por tattoos. A primeira ele fez aos 11, levado pela mãe. Era um sol, na coxa direita. Na adolescência evoluiu de tatuagens inocentes para figuras demoníacas e implantes radicais – já então contrariando os pais.

Pesquisando na internet, Felipe virou autoridade em body modification. Quando começou a fazer experiências no próprio corpo ele apareceu na RBS TV, demonstrando as técnicas. Vaidoso, cortejou cineastas para tentar exibir seu visual em filmes. Já na fase da modification total suas imagens acabaram exibidas ao grande público, mas no Ratinho, numa comparação grotesca com um porco.

Seu visual o transformou numa celebridade na web. No pequeno círculo dos tatuadores ele chegou a jurado de competições internacionais.

Quem o conhecia sabia que era determinado e não temia a dor. Ele mesmo se aplicava alguns piercings, aquelas argolas metálicas que usava no corpo, cuja fixação é um pequeno suplício.

Quando botava na cabeça que faria alguma modification ia em frente. Foi dele próprio a idéia dos chifres. ‘Eu tentei dissuadi-lo dizendo que um dia ele se arrependeria e que então seria doloroso retirá-los, mas ele não ouvia ninguém’, lembrou dona Lili.

Com a decisão tomada, ele estudou os passos da operação em livros de Medicina. Depois, orientou o tatuador que fez a cirurgia.

Nos últimos meses Felipe alimentou a bizarra fantasia de se transformar num animal como aqueles que amava – a idéia era virar um lagarto, aplicando sob a pele das costas bolinhas de silicone que lhe dariam um aspecto enrugado. A língua já estava pronta, dividida numa operação feita por um dentista de Taquara.

No final de março Felipe anunciou a meta de implantar a máscara maori e virar lagarto, coisas que o deixariam irreconhecível. Ninguém duvidou da possibilidade. Mas era tarde. Ninguém pôde mais fazer coisa alguma por ele, exceto assistir sua dolorosa renúncia à humanidade.

Polícia não consegue depoimento do pai

A primeira pessoa a ver Felipe morto foi Tadeu, porteiro do edifício Palácio, onde morava Odacir Klein. Ele contou que estava no saguão quando ouviu ‘um grito e um baque’. Caminhou até o muro que dá para o edifício Santa Maria e viu o corpo do rapaz estatelado no depósito de lixo do prédio vizinho.

Eram 18h56min do sábado 17 de abril. Tadeu chamou a polícia.

Quase três meses depois, a polícia ainda não tinha concluído o inquérito para apurar se Felipe se atirou, ou caiu, ou foi jogado do apto 903, o quarto e sala do pai no nono andar do Palácio, no 888 da Duque de Caxias.

Só pai e filho estavam no apartamento na hora da morte – e o pai não deu depoimento. Alguns jornais divulgaram que alguém vira Felipe no parapeito momentos antes da queda. Tal testemunha confirmaria suicídio, mas ela nunca existiu.

Quem esteve muito próximo da cena, mas também nada viu, foi Lucas, um estudante que mora no oitavo andar do prédio vizinho, quase janela com janela com o apê onde estava Felipe. Ele apenas ouviu o mesmo grito e baque escutados pelo porteiro.

Por determinação superior, a investigação da morte de Felipe não foi para a delegacia do bairro, como sempre acontece com cidadãos comuns, mas sim para a especializada em homicídios.

O delegado Márcio Zachello, encarregado do inquérito, disse que ‘a investigação contempla todas as possibilidades’, mas trabalha mais com a hipótese de suicídio. Ele promete concluir a apuração ‘em breve’. Três são as principais evidências de suicídio. A primeira é que o corpo de Felipe foi encontrado a 11 metros de distância do prédio do Palácio, sinalizando que ele teria tomado impulso.

A segunda foi a constatação de que o pai estava quase inconsciente na hora da tragédia, bêbado demais para qualquer ação violenta. Examinado pelo Departamento Médico-Legal, ele tinha 26 decigramas de álcool por litro de sangue, numa escala onde seis é o limite legal da embriaguês.

A terceira é o depoimento da namorada, a estudante Karen, 20 anos. Ela disse às autoridades que os dois tinham um pacto de suicídio. Karen desistiu da idéia quando eles discordaram sobre formas indolores de morrer – Felipe gostava de se flagelar.

Ainda faltam duas peças para a conclusão do inquérito. O laudo da perícia feita no local pelo Instituto de Criminalística e o depoimento do pai. Ele já disse a familiares e amigos que não se lembra de nada do ocorrido naquela noite.

Filho cuidava de Odacir

Era Felipe quem cuidava do pai quando este bebia demais. ‘Meu filho se preocupava com o que pudesse acontecer com Odacir’, contou dona Lili. ‘Ele sempre tentava protegê-lo’.

O drama do alcoolismo foi vivido em segredo pela família durante anos, até ser exposto em rede nacional de TV, em 1996. Odacir, então ministro dos Transportes, voltava de uma festa com o filho mais velho, Fabrício, quando este atropelou e matou um operário, em Brasília. Os dois fugiram sem prestar socorro à vítima, mas alguém anotou a placa do carro e eles foram descobertos. O ministro estava embriagado. Com a repercussão do caso ele renunciou ao cargo.

No últimos anos Odacir fez vários tratamentos, alternando períodos ruins com outros de sobriedade. No ano passado, se separou da mulher e foi viver na mesma rua, a um quarteirão. Quando estava em dia ruim, assessores levavam documentos oficiais para que ele os assinasse em casa.

Última hora

Passava das 5 da tarde daquele sábado quando Felipe saiu do apê da mãe, atravessou a Praça da Matriz e caminhou até o do pai. untitled8Àquela hora a família sabia que Odacir estava alcoolizado – e o filho cumpriria pela última vez a tarefa de cuidar dele.

‘Quando meu filho saiu eu fiquei rezando o terço libertário. Pedi a Jesus para proteger e libertar os dois’, disse dona Lili – ela não derramou uma lágrima sequer durante 40 minutos de entrevista, numa manhã de junho.

Felipe chegou no edifício do pai e o esperou no saguão. Odacir apareceu pouco antes da seis, cambaleando. Caiu no portão. O zelador Gérson e o porteiro Tadeu tiveram que carregá-lo.

Os dois levaram Odacir para o elevador. Na curta viagem, Gérson notou que ele se contorceu de dor, provocada por um forte beliscão que Felipe lhe aplicara nas costas.

‘Eu disse para ele parar de judiar do doutor Odacir’, contou Gérson. Felipe rebateu: ‘Ele só nos faz passar vergonha’. A frase do rapaz com o rosto desfigurado soou estranha para o zelador: ‘Vinda de quem vinha, parecia piada, mas notei que ele estava muito nervoso e fiquei quieto’.

No apê, Felipe ordenou que os dois atirassem o pai no chão, mas Gérson não aceitou: ‘Mandei ele abrir a bicama da sala e o deixamos ali’.

O que aconteceu depois não teve testemunhas. Vizinhos ouviram pai e filho discutindo, gritos abafados por portas fechadas. Às 18h56, a queda.

A polícia chegou logo depois. Odacir aparece sem camisa nas fotos do inquérito, descabelado. Num relatório do SAMU os paramédicos atestaram que ele estava ‘com hálito etílico, fala arrastada e movimentos desorientados’, mas sem ferimentos, exceto pequenos arranhões.

Uma parente passou pela rua, viu o rebuliço, ouviu o zum zum zum e correu para a casa de dona Lili – ainda sem saber quem tinha morrido. ‘Eu pensei que tinha sido o Odacir’, disse depois dona Lili. ‘Quando entrei na sala e o vi de pé, entendi que era Felipe’.

Ela ainda teve coragem para ir à janela e olhar para baixo. O filho estava de bruços, com as pernas quebradas, os pés torcidos para fora e os braços abertos em cruz.

Serenidade

Dona Lili disse que já temia que o filho se matasse e mostrou dois sinais: ‘Uma semana antes ele me deu uns óculos que eu gostava e distribuiu os bichos’. Tutankamon, o gato persa preferido, e Corn Snake, uma cobra americana, foram para o amigo Xande, tatuador em Camaquã. A mãe disse que agora se sente serena porque ‘ele sempre teve tudo o que queria, toda a ajuda que precisava. Não adiantou. Acho que ele estava muito avançado para nós, noutra dimensão’.

Ela buscou apoio num grupo de pessoas que também perderam parentes: ‘Com eles a gente pode falar, explicar e entender tudo’.

Dona Lili e o resto da família decidiram armar uma barreira de silêncio. Todos temem que o incidente possa prejudicar a candidatura do irmão Fabrício à Câmara de Vereadores.

Recuperado do choque, Odacir retomou o trabalho, até viajou para a China na comitiva do governador. A tragédia uniu outra vez Lili e Odacir – ele voltou para casa, nunca mais pisou no apê onde Felipe morreu.

Rebeldia no enterro

Felipe fez parte de um grupo gótico freqüentador do estúdio Tattoo Company, da rua Duque. A musa do pessoal era a pintora Sílvia Motosi, uma Frida Kahlo dos pampas, cujos trabalhos estão expostos este mês na Usina do Gasômetro – amiga de Felipe, tatuada no mesmo estúdio e pelo mesmo tatuador, ela se matou em 2002, do mesmo jeito: saltando da janela do apê da família.

Quando menino Felipe era como um mascote da turma, composta por gente bem mais velha. Na adolescência era cliente compulsivo. Finalmente, quando já estava todo tatuado, virou garoto-propaganda da casa. O pessoal de lá elogiava muito seu visual – ele se sentia estimulado e ia cada vez mais fundo.

Um tatuador do estúdio era seu confidente. Quando não estava se tatuando, Felipe aparecia com amigos para quem oferecia os serviços do estúdio. Por algum tempo a mesma turma se reuniu no atelier da arquiteta Roberta, uma notável na tribo, para discussões sobre body modification, universo gótico e a arte da tatuagem, considerada por eles ‘tão efêmera quanto a vida’.

Ainda adolescente ele serviu de modelo num calendário gótico. Na última página Felipe exibe o corpo com a palavra ‘alone’ (sozinho), enquanto abraça a arquiteta – ela hoje tem 32 anos, vive na Áustria.

Uma série de fotos feitas pela produtora de moda Marion Velasco, com a participação de modelo Priscila Burman, é emblemática do visual chocante de Felipe mesmo antes do implante de chifres.

Seu corpo estava coberto por tatuagens aparentemente sem sentido. A mais dramática era uma face demoníaca no peito. Exibia cemitérios, dragões, flores, máscaras, frases completas – uma delas, em alemão, dizia ‘solidão para sempre’.

Para quem se sentia sozinho em vida, Felipe teve um enterro superconcorrido. Com a presença do governador Germano Rigotto, do senador Pedro Simon e até de adversários políticos do pai, como o ex-governador Alceu Collares, a cerimônia acabou atraindo centenas de pessoas e muitos jornalistas – foi tudo, menos discreta.

Os amigos do lado gótico dele não gostaram de ver tantos políticos no velório. Virgínia contou que um grupo de tatuadores, ela junto, ‘se posicionou entre o caixão e os políticos durante alguns minutos, tenho certeza que Felipe gostaria do que fizemos para protegê-lo’.

As diferenças entre família e tatuadores apareceram também no convite para enterro, com dois textos. Um falando que o menino foi acolhido por Jesus e Maria. O outro dizendo que ‘no mundo de Felipe não pode haver maldade’. Houve um pequeno momento de constrangimento entre as duas turmas, episódio relatado por Virginia. A irmã dele, Fernanda, estava fazendo um agradecimento público aos tatuadores, dizendo ‘vocês eram sua verdadeira família’, quando foi brecada pela mãe: ‘Não filha, ele nos amava, nós é que éramos sua família’ – dona Lili falou com a autoridade de quem mais o conhecia.

Felipe levou consigo algumas de suas bizarrices. No dedo anular direito, um anel em forma de esqueleto. No pescoço, uma corrente com seu inseparável bisturi. Virgínia meteu um broche no caixão, em sinal de amizade eterna. Karen, a última namorada, botou uma vaquinha nas mãos dele, certa de que seu amor só estaria feliz na companhia de algum animal.

Felipe foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. Virgínia reclamou da aparência prosaica do túmulo, queria ‘alguma coisa medieval’, que ela julgava seria mais ao gosto gótico do morto.

A tumba acabou adornada por um singelo bibelô de gesso, com a figura de um anjo montado num escorpião. A mãe mandou gravar uma frase na lápide, citando o martírio de Jesus no Calvário: ‘Nos precedestes na luz’.

Amor no Rio de Janeiro foi raro momento de paz

Felipe conheceu o amor. Foi em outubro de 2001, numa convenção de tatuadores, em São Paulo. Aos 18 anos, branquelo e magro, 1m80 e ombros largos, ele atraiu Helena, sete anos mais velha, branquela e cheinha, 1m66. Ela só se aproximou dele dias depois, no protocolo jovem: via email.

Já em Porto Alegre, ele respondeu dizendo que também a tinha notado. Pediu uma imagem para conferir. E gostou da mulher que não fazia o tipo deprê. Carioca criada no Leblon, filha de uma professora de Literatura Francesa e formada em Publicidade, ela trabalhava numa produtora de filmes.

Superocupada, só teve tempo de vir a Porto Alegre na virada de 2002. Na noite de Ano Novo os dois ficaram. Ela jura que ‘foi um sonho’.

Helena se disse atraída ‘porque ele era muito bonito antes das modificações’, além de ser ‘mais sério do que muita gente mais velha’. Ela o achou então ‘longe de ser deprê’ e que seu figurino ‘era menos extremo’. No carnaval Felipe foi pro Rio.

Por alguns dias Helena ia trabalhar com Felipe a tiracolo. Ele ficava rolando nas locações, esperando pelo tempo livre dela. Os dois tomavam muito sorvete na lanchonete Chaika, em Ipanema. Ela engordou alguns quilinhos, ele não, ela acha que é porque ele ‘era magro de ruim’.

Helena estava apaixonada. Elogiou Felipe como ‘tudo, menos um amador’. Ela topou mudar-se para Porto Alegre. Em março de 2002, veio morar com ele, a mãe, a tia e a bicharada dele. ‘Foi um tempo legal. A gente via desenhos animados, assistia filmes sobre Medicina no Discovery. Às vezes, ele inventava coisas na cozinha, era bom em massas’, recorda a moça.

O relacionamento foi crescendo e as diferenças aparecendo. Helena: ‘Ele dizia que queria ser cada vez menos humano. Sentia ódio da raça humana. Detestava pessoas gananciosas e as que buscam notoriedade’. A ex-namorada lembra que ‘uma coisa muito dele era sofrer quando via gente fazendo coisas ruins, uns passando por cima de outros para aparecer’. Ela dizia ‘esquece isso, vamos nos divertir’, mas parece que ele ‘não era disso, levava as coisas até o fim’.

Mais Helena: ‘Eu acho que é por isso que ele se matou. Ele queria ser o menos humano, mas ao mesmo tempo encarava todos os problemas. Se você encara, como é que vai sobreviver ? O suicida é aquele que não vê uma saída. E Felipe era assim’.

Ela disse que ele demonstrava ‘grande preocupação com o pai. Quando ele sofria suas crises de alcoolismo, Felipe era o mais prestativo. Tomava a iniciativa de ajudá-lo, mas na volta se via que ele sofria. Ficava quieto num canto, muito triste’.

Num momento de depressão Felipe disse a Helena que gostaria de ser internado. ‘O psiquiatra não concordou e receitou Lexotan’, conta a ex-namorada. Depois de um ano trancada no quarto com Felipe, ela foi embora: ‘Nenhuma história de amor dura para sempre’ e ‘eu precisava trabalhar’ foram suas razões.

Nos primeiros meses separados ele foi muito ciumento. ‘Eu passei a ficar em casa, no Rio, para não desagradá-lo. Mas depois ele entendeu e me disse para desencanar, não queria nada ruim assim no nosso relacionamento’.

Felipe também seguiu adiante. No início, queixou-se para Cristiano da separação. Depois arrumou outra namorada, mas reclamava que ela ‘pegava no pé por picuinhas’. Não queria ficar sozinho e seu lema passou a ser ‘antes mal acompanhado do que só’. Nunca escondeu sua paixão e a falta que Helena lhe fazia.

Depois da morte, Helena foi chamada pela família – ela não o vira durante a fase final de modificações corporais. Um carro oficial foi esperá-la no aeroporto e o enterro atrasado para sua chegada.

Virgínia disse que a viu no caixão, serena, repetindo baixinho para o morto, com ternura: ‘Me desculpe. Se eu não tivesse ido embora você ainda estaria vivo’.

Agora é tarde, Felipe Augusto foi na frente. Nos precedeu na luz.

O texto original foi publicado no Jornal Já, de Porto Alegre e pode ser visto aqui!

 

Pela última vez, Christian Carvalho Cruz.

Boa Noite, para encerrar os trabalhos no blog neste semestre, escolhemos indicar o livro “Entretanto, foi assim que aconteceu” do Christian Carvalho Cruz,  que escreve no caderno Aliás do Estado de São Paulo. O livro traz 23 reportagens de Cruz  entre perfis – de Elza Soares à Geisy Arruda – e investigações. Neste link é possível encontrar as duas primeiras reportagens do livro. Sugiro a análise da reportagem “Baile dos Descarados”.

Desde já Agradeço a todos os alunos que comentaram no Blog durante este semestre.

Obrigado pela atenção!

Ana Carolina

Gay Talese

Boa Noite, hoje temos a participação de um aluno no material pro blog, o Fernando Zenga, que nos mandou um print de uma matéria que foi escrita pelo Ivan Finotti. Como o texto é exclusivo para assinantes da Folha ou da Uol, estou publicando ele na  íntegra abaixo, e a entrevista recortada do jornal.

Boa Leitura!

Jornalismo é como sedução, diz Gay Talese

Nome fundamental do ofício no século 20, repórter veterano falou em São Paulo sobre seus métodos de trabalho

No país para Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural, americano fez ontem palestra na Folha

IVAN FINOTTI
DE SÃO PAULO

Para o jornalista americano Gay Talese, o repórter é um sedutor que conquista seus personagens como um vendedor convence a clientela.

Talese, 80, ilustrou bem o que quer dizer, ontem, em uma palestra de uma hora e meia para jornalistas na Folha. No encontro, contou histórias de suas reportagens, como “Frank Sinatra Está Resfriado”, e comentou seus métodos de trabalho.

Sem celular, notebook ou tablet, Talese anda com pequenos cartões para escrever o que vê ou precisa saber.

O veterano, que veio ao Brasil participar do Congresso Internacional Cult de Jornalismo Cultural, é considerado pai do “new journalism” (novo jornalismo), ou jornalismo literário, caracterizado por reportagens que se apropriam de técnicas da ficção.

É autor de livros como “O Reino e o Poder”, sobre os bastidores do “New York Times”, “Honra Teu Pai”, sobre uma família de mafiosos, e “Fama e Anonimato”, que reúne diversas reportagens.

Filho de um alfaiate de origem italiana, mostrou-se elegante como sempre, de paletó, colete e sapato verdes, e gravata amarela. Na cabeça, um chapéu branco, o único que trouxe para o Brasil. “Em minha casa, tenho 30”, contou. Leia trechos a seguir.

LITERATURA

Quando era um menino na escola, lia contos, pequenos romances, e fiquei interessado nas narrativas. Mais tarde, me perguntei se eu poderia contar histórias, mas não com personagens imaginários, e sim reais. Não queria ser um repórter, mas contar histórias. Não precisava usar a imaginação, mas sim passar tempo com as pessoas.

Pessoas nem sempre contam a verdade. São cuidadosas, pois não conhecem o jornalista. Eu queria conquistar a confiança delas. E como fazer isso? Aos poucos.

Você conhece alguém na rede social, sai, almoça, passeia e ficam íntimos. Há um paralelo com o tipo de jornalismo que faço. Às vezes, nós, jornalistas, somos sedutores. E não quero ser o sedutor de uma noite só, mas sim um parceiro de uma relação.

JORNALISMO

Eu acho que jornalismo pode ser uma forma de arte.

Estudantes de jornalismo estão sempre reclamando que não têm emprego na área. Quando comecei, eu pegava sanduíches para o pessoal. Era o jeito de entrar.

Quem reclama que não tem tempo para um bom trabalho precisa arrumar esse tempo. Você não deve ser um repórter como qualquer outro. Tem que ter perseverança, ego e até arrogância.

Muitas vezes você escreve sobre pessoas famosas e não pode se sentir diminuído, como se estivesse falando com alguma pessoa extraordinária. Por isso, desde jovem me sentia importante.

LIÇÕES DE FAMÍLIA

Não tenho celular, não uso e-mail. Vou conhecer as pessoas. Minha atitude vem da minha família. Minha mãe tinha uma loja de vestidos e meu pai era alfaiate.

Aprendi com minha mãe: deixe as pessoas falarem, não as interrompa. Com meu pai: o que é feito à mão é melhor que o feito com máquina.

PERSONAGENS

Nunca quis escrever sobre notícias do dia, o que os economistas ou políticos disseram hoje. Queria escrever notícias não importantes, mas escrevia tão bem que saía no jornal.

Quero escrever sobre pessoas que não estão nas notícias. Elas refletem a sociedade e quero ser o cronista de suas vidas. No “New York Times”, fiz de tudo para ficar longe dos famosos. Sugeria um monte de desconhecidos, e o editor dizia: “Quem se interessa?”. Eu me interesso.

AUTOMÓVEIS

Uma vez fiquei um ano e meio num assunto para escrever um livro. Foi entre 1980 e 1981, era sobre a indústria automobilística. Viajei com um diretor da Chrysler, frequentei reuniões, fui até Tóquio. Mas decidi que não queria mais. Seria muito sensacionalista.

Escrevi sobre mafiosos. Escrevi sobre pervertidos. Eu os respeito porque não estavam se escondendo; mas o pessoal do automóvel não era o que dizia ser. E expô-lo seria sensacionalista.

VENDEDOR

Uma reportagem começa na curiosidade. Você decide escrever sobre algo. Por quê? Porque te deixa curioso.

Aí, precisa achar alguém e propor que ele colabore. Como? Com técnicas refinadas de vendedor.

É como vender um aspirador. Se a pessoa já tiver, insista para ela tentar o seu.

Sou polido, não forço a barra. Acredito que o que vou escrever tem valor, não é superficial. Chego na pessoa com boas maneiras, estou sempre de terno e gravata, não importa se é o presidente ou lixeiro.

Aqui, por exemplo, está todo mundo mal vestido, mas não é meu problema (risos).

REPORTAGEM

Você diz à pessoa que ela tem uma história significativa e pergunta se ela pode colaborar. Se ele estiver ocupada e tiver que ir ao dentista, você pergunta se pode ir com ela. Eu procuro situações. É a arte de sair com as pessoas.

MÉTODO

Não faço anotações enquanto a pessoa fala. Escrevo o nome, o dia, o local. Depois, no hotel, peço a máquina de escrever emprestada e escrevo tudo.

FIM DO IMPRESSO

Quando entrei no jornalismo, aos 20 anos, diziam a mesma coisa, diziam que a televisão ia acabar com o jornalismo impresso. “Está tudo na tela, para que ler no dia seguinte?”.

Não acredito que vá acabar. Mas tem que ser de boa qualidade. Bons textos vão sobreviver porque são bons.

Pesadelo de menina

Bom dia!

O texto dessa semana na verdade é um artigo, que foi publicado no Estadão esta semana da antropóloga Debora Diniz que fala sobre a polemica declaração da cantora Xuxa ao programa Fantástico da Rede Globo.

Boa Leitura

Xuxa em Sonho de Menina foi um filme para crianças. A personagem vivida pela rainha dos baixinhos era uma professora de matemática que sonhava em ser atriz. Sem grandes expectativas de roteiro, o filme combinou fantasia com relances biográficos de Xuxa, uma mulher também a meio caminho entre a realidade e a ficção. 

O tiozão conquistador

Texto de Márcio Caetano na Piauí de Maio fala sobre a idade ideal de uma namorada. Um texto muito divertido e leve.

Boa Leitura!

“Em primeiro lugar, preciso esclarecer que só aceitei publicar este depoimento porque uma estagiária bem jeitosinha aqui da imobiliária, que acaba de completar 23 primaverinhas, me disse – com aquele jeitinho de estagiária jeitosinha que acaba de completar 23 primaverinhas – que achariairado ver o meu nome estampado nas páginas desta revista, cujas capas, segundo ela, são sinistras. Confesso que não conhecia. Minhas leituras vão mais na direção de Cigar Aficionado e Yachts & Boats.”

Vida de Escritor

Bom Dia, hoje trago pra vocês uma indicação de leitura diferente. Um livro de Gay Talese lançado em 1999, que como diz o proprio titulo fala de como é a rotina do escritor. A seguir, temos uma resenha do livro, e no Ambiente Virtual de Aprendizagem teremos um trecho do texto para ser analisado.

Boa Leitura!

Sábado à tarde, 10 de julho de 1999. O jornalista Gay Talese, um dos mais renomados escritores de não-ficção dos Estados Unidos, zapeia os canais da TV no intervalo do jogo de beisebol, quando chama sua atenção a transmissão da final da Copa do Mundo feminina de futebol. China contra Estados Unidos. Na decisão por pênaltis, o time da casa vence as chinesas, que entregam o título após uma cobrança defendida pela goleira norte-americana.

Respiro ameaçado

O texto de hoje traz como é a vida das mulheres afegãs.

Qais engatinha sobre o tapete, tenta ficar de pé e cai entre as almofadas. O pai sorri. É seu primeiro filho. Ele e a mulher não pretendiam pegar o menino, mas Alá só lhes mandou filhas mulheres. Com a perspectiva da volta do Taleban, quem vai cuidar da família no futuro? Abdul Halim, o pai, tem 37 anos – a expectativa de vida no Afeganistão é de 42. Ele decidiu comprar Qais por US$ 1 mil em uma maternidade de Cabul. No caso de o futuro sombrio chegar, o bebê será o protetor da família. Um filho guardião.

Boa Leitura.