Autor: Carol Roque

O universo que há em um fato

Amigos,

Nos dois últimos posts usamos o termo “boa história” para exemplificar momentos em que o jornalismo soube aproveita-las.

Novamente pergunto: mas o que é uma boa história para o jornalismo? Infelizmente continua difícil chegar a uma resposta certeira.

Mas sabemos que a existência de uma boa história depende muito de algo: o jornalista e sua capacidade (e disposição) para buscar ou construir uma.

Nessa altura do semestre, vocês já estão com a produção da reportagem encaminhada. Por isso proponho mais exemplos de textos que podem usar como inspiração, base ou guia.

O caderno Aliás do Estadão propõe-se a repassar, aprofundar e analisar os fatos noticiados na semana. E quem seguiu essa premissa foi o jornalista Christian Carvalho Cruz. Seus textos que já foram impressos no suplemento merecem destaque:

Escrito em 1ª pessoa “Uma senhora batuta” nos lembra o estilo do livro de Claudio Tognolli. Em “Fóssil à deriva”, além de um factual com narrativa literária, nos é apresentado um resumo histórico. Assim também no “De torpedo em torpedo” no qual passamos a saber da existência de um campeonato de digitação e da evolução do dedo polegar. Em “A vida em rosa” há metáforas, comparações, jogos com palavras, descrição de personagens tão detalhadas, que até o jeito e sotaque da fala são evidenciados.

Lembrando que esses textos ocuparam uma página standard de jornal, obrigando o jornalista a escrever com concisão, ritmo e cadência.

Outra dica que deixo é a série de reportagens que a VICE Brasil vem publicando sobre a semana violenta de maio de 2006, em São Paulo. O Risca Faca também está com uma edição especial sobre o tema.

Só mais uma, que foge de jornalismo literário: entre junho e julho acontece o curso online gratuito “Produção de Vídeos Jornalísticos para a Internet”, oferecido pela Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Acredito que vale muito a inscrição, considerando que o vídeo online é a tendência da década e será responsável por 80% do tráfego da internet em 2019.

Aproveitem a leitura 🙂

 

 

 

Tudo vale por uma boa história?

Amigos,

Hoje proponho uma reflexão sobre uma situação que pode acontecer com qualquer jornalista. Uma situação que coloca em jogo a ética, a reputação e a moral do profissional.

Vamos a uma hipótese:

Uma pessoa (neste caso a fonte) entra em contato com você para contar uma história. Ela confessa que está envolvida em um ato ilícito (muito ou pouco grave, porém ilegal) e pede que você escreva sobre isso. Mas há uma condição: enquanto você, como jornalista, realiza a documentação do fato com investigação, entrevista ou fotos, nada pode ser publicado até que a fonte permita.

Opção 1: você aceita a proposta

Opção 3: você não aceita a proposta e fica na sua

Opção 4: você não aceita a proposta e denuncia a fonte

Um agravante: durante esse processo, você acompanharia o informante durante o ato ilícito que ele comete e, como concordou em manter sigilo, de certa forma se transformaria em um cúmplice por omissão.

O que você faria?

Talvez buscar um exemplo nos jornalistas mais experientes seria uma boa ideia. Mas e se isso tivesse acontecido de verdade com um profissional, que escolheu ficar calado durante anos pelo bem de uma boa história?

No dia 11 deste mês, a versão eletrônica da revista The New Yorker publicou uma matéria sobre a história de um homem chamado Gerald Foos que comprou um motel em Denver, Colorado nos anos 60 e elaborou um sistema secreto para espiar hóspedes, principalmente suas atividades sexuais. Por décadas, ele ficou à espreita, olhando, analisando e escrevendo cada movimento e atividade de quem estava nos quartos.

A matéria leva a assinatura de Gay Talese.

Sim! O pai do novo jornalismo.

motel

O Manor House Motel, cujo proprietário manteve, secretamente, a prática de voyeurismo durante 25 anos (Foto: Reprodução Amazon)

Talese conta que recebeu uma carta em que Foos explicava ter um material interessante, que poderia contribuir ao trabalho que vinha desenvolvendo no livro A Mulher do Próximo, um retrato da sexualidade norte-americana nas décadas de 60 e 70.

Nos dias que se seguiram, ele afirma ter refletido muito sobre a história do homem que violava, em segredo, a privacidade sexual de desconhecidos. Por fim, ele aceitou a proposta justificando que ele próprio havia utilizado métodos semelhantes em seus trabalhos. A maioria dos jornalistas são voyers incansáveis que vêem as verrugas no mundo, as imperfeições de pessoas e lugares”, explica na matéria.

Foos manteve a prática até vender o motel em 1995 e só em 2013 o jornalista recebeu a autorização para divulgar a história, 33 anos depois de conhecer o fato.

Mais: vindo de Gay Talese, não é uma surpresa o fato de que um livro sobre o caso será lançado, ainda neste ano.

E então, o jornalismo é um vale-tudo?

Mudando de assunto. O aluno Thiago Carrico, do matutino, recomendou um site para os cinéfilos. No MemoCine estão disponibilizadas algumas películas do século passado, além de documentários, curtas e séries. Nem só na Netflix podemos nos perder com tantos títulos 🙂

 

‘Meus heróis não viraram estátua’

Amigos,

Recentemente falamos aqui no blog sobre a Jornada do Herói, estrutura narrativa que há tempos é um padrão mundial nos roteiros de filmes. Tal processo de construção de um personagem e sua história, também é muito explorado pela literatura. Mas isso não significa que o jornalismo, por estar no âmbito da não ficção, não possa retratar uma jornada de herói. Para isso acontecer, é necessário uma boa história com um bom personagem, ambos reais.

Pode ser redundante lembrar que o jornalismo literário vive de boas histórias e, por outro lado, pode ser bem difícil definir o que é uma boa história. Mas é neste momento que o jornalista pode trabalhar a capacidade de investigação para chegar a realidades escondidas, porém surpreendentes.

Em 2010, o Brasil recebeu 560 solicitações de refúgio. Já em 2014, o número passou para 12 mil pedidos. Os principais grupos de refugiados que chegam ao país, de acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), vêm da Síria, Colômbia, Angola e República Democrática do Congo. O movimento imigratório mundial novamente chega a números assustadores com o agravamento de guerras internas e perseguição de governos autoritários, tantos nesses países citados, quanto em outros.

post 2 - jornada do herói - jorliteratura

A Jornada do Herói da vida real nem sempre é reconhecida, mas nas mãos do jornalismo literário pode se tornar grandiosa | Ilustração: Pedro Matallo

Aqueles que precisam chegar ao ponto de solicitar refúgio, abandonaram seus países de origem porque corriam risco de vida no local. Da mesma forma com que essas pessoas carregam uma bagagem muito pesada de medo, angústia e tristeza, elas chegam ao destino com a esperança de dias melhores. Nem sempre só a partida e a chegada são cheias de dificuldades, mas também a travessia (muitas vezes digna de uma jornada de herói real e nem tanto gloriosa como mostram os filmes).

Imaginemos então, que por trás daqueles 12 mil pedidos de refúgio há pessoas com boas histórias e que por isso, merecem uma narrativa de fôlego. É o caso do colombiano Robert Arturo Cardenas, cuja viagem, desde Bogotá até São Paulo, foi narrada em quatro partes pela jornalista Adriana Negreiros, para o BRIO. A história é longa, mas conseguimos perceber as partes que fazem dela uma legítima jornada de herói. Vale a pena tirar um (bom) tempo para ler os capítulos 1, 2, 3 e 4.

Mas é preciso chamar atenção para o fato de que a figura de um herói (seja na ficção ou não) é na maioria dos casos masculina. Não contestar isso é concordar com uma regra silenciosa de que um gênero merece mais protagonismo que outro. Independente da origem, raça e gênero, muitas pessoas possuem uma jornada de herói que pode ser muito bem aproveitada. E foi isso que o projeto Vidas Refugiadas fez ao expor histórias de algumas mulheres refugiadas no Brasil. No site também é possível conhecer um pouco mais sobre a situação desses estrangeiros no país.

Espero que essas duas dicas ajudem a perceber que o jornalismo pode aproveitar muito de características da literatura e da ficção.

Boa leitura 🙂

DETALHE: Nos filmes da Disney podemos perceber facilmente como a jornada do herói se encaixa no roteiro. Segue um exemplo com o filme Carros:

Jornada do Herói_Carros

 

Jornalismo para quem tem fôlego

Amigos,

Por mais um semestre o blog é reativado com o início dos estudos de jornalismo literário. Esperamos seguir como um espaço para enriquecer e assimilar os conteúdos produzidos pela imprensa (tradicional e independente) com o que é visto em sala de aula.

Começamos com uma dica de site que vale a pena visitar: a plataforma BRIO.
“Histórias reais e jornalismo de fôlego para quem gosta de ter assunto” é a frase que simplifica o conteúdo desse projeto multimídia criado em 2015.

No resto da descrição, percebemos que a equipe se propõe a seguir as recomendações de Tom Wolfe (sobre o fazer jornalismo literário) quando afirmam produzir grandes reportagens com ângulos nunca antes abordados, criando assim narrativas de alto impacto pois abandonam a superficialidade e mergulham nos fatos, nos personagens e nos conflitos de uma boa história.

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