Autor: camilacmonteiros

A Jornada do Herói na telona

Amigos,

Por mais prazeroso que possa ser assistir a um filme, fazer cinema não é uma tarefa simples. Não estou me referindo só às dificuldades de conquistar uma fatia do mercado cinematográfico ou aos custos elevados que fazem parte da produção, mas fazer um produto final de qualidade é um verdadeiro desafio. Centenária, a sétima arte já se consolidou e, consequentemente, criou padrões. Hoje, vamos falar de um dos mais famosos deles – a Jornada do Herói.

Podemos afirmar com total tranquilidade que a Jornada do Herói nos filmes está presente tanto nos blockbusters hollywoodianos quanto no cinema de arte. Pensando nisso, eis que surgem as dúvidas: “O cinema é a nova mitologia da humanidade?”, “A compreensão da Jornada empobrece a criatividade do roteirista?” e “Como entender os arquétipos sem reduzi-los a estereótipos?”.

As respostas para todas essas perguntas estão baseadas no fato de que a Jornada o Herói foi, é e vai continuar sendo referência para as nossas vidas. É isso mesmo. A estrutura se repete mundialmente através dos tempos porque, apesar de não ser todo mundo que vira um messias em Matrix, todos nós enfrentamos obstáculos no dia-a-dia. Aprender a dirigir, superar uma perda, conquistar um emprego novo. Todo mundo é o herói de sua própria vida.

Assim, a Jornada do Herói é nada mais nada menos do que uma convenção, um paradigma literário identificado em diversas narrativas e que tem funcionado muito bem na ficção fantástica, auxiliando muitos escritores na construção de uma trama emocionalmente, envolvente e verossímil. Os 12 passos pelos quais a Jornada se sucede foram apresentados pela primeira vez pelo autor Joseph Campbell em 1949, no livro O Herói de Mil Faces. Mas, sobre maiores detalhes, nada melhor que esses cinco minutinhos de vídeo que explicam toda a teoria e ainda estimula a usá-la para enfrentar as dificuldades da vida.

 

E se vocês são fãs de super-heróis ou a adaptação deles no cinema, como a trilogia do cavaleiro das trevas (Batman), vão gostar desse infográfico.

a0924692-infografico-jornada-1000px

Infográfico: Viver de Blog

 

E, pra terminar sem fugir do jornalismo propriamente dito, vai um exemplo de mini-documentário.

 

-> DICA DE SITE

No Homo Literatus por meio da série em vídeo A Arte de Contar Histórias por Escrito, Vilto Reis, editor do site, e o escritor Maicon Tenfen falam sobre o processo de criação de grandes escritores, o desenvolvimento de personagens e outros temas relacionados à construção de universos de ficção com palavras. É muito interessante!

 

BOA LEITURA!!! 😉

Anúncios

Olha o passarinho!

Amigos,

Recentemente, jornais do mundo inteiro publicaram a notícia “World Press Photo retira prêmio de fotógrafo italiano que mentiu sobre local do ensaio”. O concurso cancelou o prêmio do italiano Giovanni Troilo depois de receber denúncias de que a série sobre a cidade belga de Charleroi continha informações enganosas. O fato é que uma das imagens do ensaio intitulado “The dark heart of Europe” (“O coração negro da Europa”), sobre a pobreza extrema em Charleroi, teria sido clicada em Bruxelas. O trabalho tinha ficado em primeiro lugar na categoria “Questões contemporâneas”.

Outros fotojornalistas também disseram que algumas imagens da série “O coração negro da Europa” foram encenadas para a câmera (Foto: Divulgação)

Outros fotojornalistas também disseram que algumas imagens da série “O coração negro da Europa” foram encenadas para a câmera (Foto: Divulgação)

Polêmicas à parte, este post é destinado ao concurso. Você já tinha ouvido falar do World Press Photo? Ele é nada mais nada menos do que o concurso de fotojornalismo de maior prestígio NO MUNDO! Fundada em 1955, a World Press Photo é uma organização sem fins lucrativos e com sede na Holanda, onde a cerimônia de entrega dos prêmios é realizada. Depois da cerimônia, os retratos vencedores são reunidos em uma exposição itinerante visitada por milhões de pessoas ao redor de 40 países. Além disso, a cada ano um livro com todos os registros premiados é publicado em seis idiomas diferentes.

Livro World Press Photo 2011 (Foto: Divulgação)

Livro World Press Photo 2011 (Foto: Divulgação)

A seleção das fotos ocorre logo no início do ano, em janeiro. A edição deste ano teve a participação de 5.692 fotógrafos de 131 países com 97.912 imagens. Os principais assuntos retratados foram: a Guerra de Gaza, os conflitos na Ucrânia, a queda do avião MH17 e a epidemia do ebola. Foram premiados 42 trabalhos inseridos em 8 categorias distintas: Questões Contemporâneas, Vida Cotidiana, Notícias Gerais, Projetos de longo prazo, Natureza, Retratos, Esportes e Ponto Notícias.

O grande prêmio da 58.ª edição do World Press Photo foi atribuído ao fotojornalista dinamarquês Mads Nissen, que captou um momento íntimo entre um casal homossexual, Jon e Alex, em São Petersburgo, na Rússia. A imagem, que faz parte do projeto fotográfico intitulado Homofobia na Rússia”, pretende combater o preconceito e a discriminação, ainda muito forte naquele país. Nissen teve a ideia do projeto depois de presenciar, na Rússia, um amigo homossexual ser atacado no momento em que se despedia do namorado com um beijo.

A grande vencedora deste ano, clicada por Mads Nissen (Foto: Divulgação)

A grande vencedora deste ano, clicada por Mads Nissen (Foto: Divulgação)

Para participar do concurso, você precisa ser fotógrafo profissional ou fotojornalista. Inclusive, isso deve ser comprovado por meio de um documento de confirmação. O fotógrafo tem de ser o autor do material fotográfico enviado, o qual precisa incluir toda a informação referente à imagem, como data, local e país de criação assim como texto descritivo. Não são aceitas imagens com molduras, fundos ou outros efeitos adicionados. A inscrição é gratuita.

 

FICOU CURIOSO, NÉ? 🙂

Quer ver e saber a história das demais fotos ganhadoras do World Press Photo 2015? Clique aqui!

 

BOA LEITURA!!! 😉

O jornalismo de guerra em HQs

Amigos,

Na última sexta-feira (24), Emerson Jambelli, ex-aluno da PUC-Campinas, voltou à faculdade para falar sobre o seu  Projeto Experimental “Duas guerras, dois livros”. Feito há dois anos, o estudo se trata de uma análise comparativa entre “O gosto da guerra”, de José Hamilton Ribeiro, e “Dias de inferno na Síria”, de Klester Cavalcanti. Mas e se, enquanto alguns escolhem o texto, a fotografia ou o vídeo para contar histórias de guerra, nós uníssemos a paixão pela profissão e pelo desenho

Imagine poder escolher entre relatos cheios de números e datas e relatos humanizados que contam a história do ponto de vista de pessoas comuns. Para completar, imagine poder contar com cenários e imagens daquela época nesses relatos humanizados. Imaginou? Pois é assim que você se sente quando está diante dos livros de Joe Sacco, jornalista que criou o chamado “jornalismo em quadrinhos”, uma outra maneira de informar.

Joe Sacco e a sua versão em HQ

Joe Sacco e a sua versão em HQ (Foto: divulgação)

Ele nasceu em Malta e vive nos EUA desde a adolescência. Sacco começou desenhando quadrinhos satíricos, mas logo percebeu que podia contar histórias de conflitos, como o que acontecia entre palestinos e israelenses no Oriente Médio. No começo, a principal barreira a ser quebrada pelo jornalista foi o preconceito dos vários editores que não encaravam com seriedade as grandes reportagens na linguagem das HQs. Hoje, a obra de Joe Sacco consegue ser mais convincente do que muita fotografia ou matéria de jornal.

(Foto: divulgação)

(Foto: divulgação)

Para Sacco, a linguagem dos quadrinhos permite que o leitor entenda todo o contexto dos acontecimentos. Inclusive, pessoas é o foco do jornalista, já que ele precisa investigá-las para que consiga dar voz os personagens afetados pela guerra. Por documentar o conflito entre Israel e Palestina e a guerra na Bósnia, Joe Sacco recebeu diversos prêmios. Entre eles estão o Prêmio Eisner e o American Book Award, pelas obras “Área de Segurança Gorazde” e “Palestina”, respectivamente.

(Foto: divulgação)

(Foto: divulgação)

Em seus livros, o autor conta a realidade, e não a ficção. Mostra vários aspectos dos lugares que visitou e retrata desde guerrilheiros até jovens que querem apenas um pouco de diversão. O próprio Joe Sacco é personagem de suas ilustrações, pois, como repórter, acredita que não pode se excluir do contexto. Ler Joe Sacco é não só uma nova experiência literária, mas também uma aula de história, ambas diferentes de qualquer coisa que você já tenha lido.

Em 2011, o jornalista veio ao Brasil e participou da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), no Rio de Janeiro. Assista a entrevista que ele concedeu ao SaraivaConteúdo, no “Especial FLIP” do canal no YouTube:

 

BOA LEITURA!!! 😉

Perfil biográfico X Biografia

Amigos,

Vocês gostam de histórias? Há inúmeras maneiras de escrevê-las, mas vocês imaginam alguma sem personagens? Não, certo? Nenhuma história pode existir sem personagem. As formas de apresentar e caracterizar os protagonistas também são variadas, mas hoje falaremos sobre duas delas: o perfil biográfico e a biografia. Normalmente, esse tipo de texto cativa a maioria dos leitores porque, por meio dele, é possível descobrir informações curiosíssimas sobre a vida das pessoas. Apesar de muitas obras biográficas poderem ser comparadas a romances, de tão incomum e interessante que possa ter sido a vida do personagem, o gênero biográfico trata de narrativas não ficcionais.

Como vocês sabem, a polêmica sobre as biografias voltou a ser debatida no ano passado, quando a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 393/11, a chamada Lei das Biografias, que modifica o Código Civil e libera a publicação de “imagens, escritos e informações” biográficas de personalidades públicas, sem necessidade de autorização. Como diria o jornalista e escritor Ruy Castro, “O biografado dos sonhos precisa ser… filho único, órfão, solteirão, estéril e brocha – única maneira de o biógrafo ficar a salvo de encrencas”.

Ruy Catro conversou com muitas pessoas próximas de seu biografado, Garrincha. Citou todos se seção "Agradecimentos", mas não escapou de um processo (Foto: Divulgação)

Ruy Catro conversou com muitas pessoas próximas de seu biografado Garrincha e, mesmo tendo citado todos em “Agradecimentos”, não escapou de um processo (Foto: Divulgação)

Mas o perfil biográfico e a biografia são a mesma coisa?

Não. Ambos são narrativas sobre uma pessoa, com descrições, histórias de vida e relatos. Porém, há diferenças. Sérgio Vilas Boas, no livro “Perfis – e como escrevê-los” , diz que, enquanto nas biografias os autores têm que abordar os detalhes da história do biografado, nos perfis podem focalizar apenas alguns momentos da vida da pessoa. É uma narrativa curta tanto no tamanho do texto quanto no tempo de validade de algumas informações e interpretações do repórter. Já a biografia é um trabalho de pesquisa, que geralmente exige do biógrafo dedicação e pesquisa detalhista sobre a vida e a obra da personagem biografada.

Outra diferença é que o perfil é preferencialmente sobre vivos e a biografia é escrita, na maioria das vezes, sobre personagens que já morreram. Além disso, no processo de apuração e escrita de perfis, a relação entre o escritor e o perfilado é fundamental. O repórter precisa tornar-se íntimo. Deve-se levar em conta a importância, a essência, o momento, as opiniões e os episódios da vida do perfilado e também as percepções do próprio escritor que o acompanhou.

Gay Talese, estilo próprio nas roupas e na escrita

Gay Talese, estilo próprio nas roupas e na escrita

Gay Talese, por exemplo, é famoso por escrever perfis marcantes. O “Frank Sinatra está resfriado”, publicado em 1966 na revista “Esquire” e também presente em “Fama e Anonimato”, foi escrito sem o jornalista fazer uma entrevista sequer com o perfilado. Apesar de Talese não conseguir falar com Sinatra, ouviu dezenas de pessoas ligadas ao cantor e, através de depoimentos e observações, criou um perfil inédito do famoso. Em 2003, a “Esquire” republicou o perfil por considerá-lo o melhor da revista em 70 anos. Leia aqui o texto em português.

Edição de abril de 1966 da revista Esquire

Edição de abril de 1966 da revista Esquire

“Histórias bem escritas sempre terão leitores”, garante Talese. Veja a entrevista concedida à “TV Folha” em 2012:

 

Portanto, se você tem dificuldades na hora de escrever um perfil, isso é absolutamente normal. O processo de escrita foi doloroso até pra Talese. Em uma das passagens de “Vida de Escritor”, ele define escrever como “dirigir um caminhão à noite sem farol, perder o caminho e passar uma década em um buraco”. Inclusive, muitas de suas reportagens acabaram não conseguindo espaço em jornais e revistas por causa do grande tempo de apuração e finalização. Por isso são mais de dez livros publicados.  Ao contrário de outros autores do jornalismo literário, Talese não escreveu livros de ficção.

 

-> DICA DE LIVRO 😉

6374_1_20140801150221PERFIS: O MUNDO DOS OUTROS (Editora Manole, 2014) – “Perfis: o Mundo dos Outros”, do jornalista Sergio Vilas-Boas, reúne 22 perfis e um ensaio sobre o gênero perfil, publicados por próprio jornalista entre 1999 e 2014, em jornais, revistas e sites. Dentre os nomes, Jayme Sirotsky (empresário), Mara Salles (chef do restaurante Tordesilhas), Jaqueline Ortolan (comandante de jatos da TAM) e o ornitólogo Johan Dalgas Frisch. Entre os famosos, o ex-jogador Tostão, os escritores Paul Auster, João Ubaldo Ribeiro, Lya Luft, Gabriel García Márquez, entre outros. O livro se destina a estudantes de jornalismo e também ao público em geral interessados nos perfis apresentados.

 

BOA LEITURA!!! 🙂

 

Sou suçuarana

Amigos,

Vamos falar um pouco mais sobre técnicas literárias? A perspectiva do autor em relação aos acontecimentos de uma história é chamada de foco narrativo, o qual varia de acordo com os diferentes pontos de vista que o narrador assume no texto. O foco pode se manifestar de duas formas: o narrador se posiciona dentro da história como personagem (primeira pessoa) ou o narrador tem uma visão de fora do enredo e passa a ser observador onisciente e onipresente (terceira pessoa).

Mas e se o personagem for uma onça? Como o jornalista vai buscar ver o que ninguém viu, entender o que ninguém entendeu, sentir o que ninguém sentiu e compreender o que ninguém compreendeu se ele tem a difícil tarefa de ser uma onça? Como ele vai perceber o que não foi dito e imergir no ambiente desse personagem?

Em um dos textos mais característicos do estilo de Ivan Marsiglia, repórter do caderno Aliás do Estado de São Paulo, ele conta a história de uma onça que deu as caras na beira de uma rodovia. O fato, ao contrário do que era esperado, foi reconstituído do ponto de vista, e com o “linguajar”, da onça. Mais do que simplesmente informar, o jornalista foi capaz de entregar uma grande história ao leitor. Quer ler? Clique aqui.

Além de personagem do texto de Marsiglia, a suçuarana é também conhecida como onça-parda ou puma (Foto: Divulgação)

Além de personagem do texto de Marsiglia, a suçuarana é também conhecida como onça-parda ou puma (Foto: Divulgação)

 

-> DICA DE LIVRO 😉

CapaPoeiraBaixa-202x300A POEIRA DOS OUTROS (Editora Arquipélago, 2013) – “Sou suçuarana” é uma das vinte reportagens reunidas no livro “A Poeira dos Outros”, de Ivan Marsiglia. O repórter demonstra se interessar pelos mais diversos assuntos, mas nesta obra é possível identificar uma preocupação recorrente: contar histórias que revelem ao leitor episódios obscuros do passado, e também do presente, do país. Isso pode ser visto no perfil do juiz que, ainda em plena ditadura, condenou o Estado pela morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida em 1975, ou no relato da movimentada e violenta madrugada de sábado em um pronto-socorro na periferia de São Paulo.

 

Boa leitura!!! 🙂

 

Gabriel García Márquez X Crônica de uma morte à toa

Amigos,

Hoje é “Dia da Mentira” e o post tem tudo a ver com a data!

Vocês sabiam que em uma entrevista com o jornalista Daniel Samper, o famoso Gabriel García Márquez confessou já ter inventado notícia? Pois é!

Um desses episódios ocorreu em 1954, quando o jornal El Espectador enviou García Márquez para cobrir um grande protesto contra o governo em Quibdó e o jovem jornalista encontrou a cidade completamente calma.  Na verdade,  o correspondente local havia inventado fatos para a redação em Bogotá. Como García Márquez não queria voltar de mãos vazias, organizou um protesto para escrever a reportagem e tirar as fotos. Depois, a matéria foi publicada com o título História íntima de uma manifestação de 400 horas e, nela, García Marquez afirmou que o protesto durou 13 dias.

Essa é uma das principais características dos romances de García Márquez: a sua capacidade de inventar uma realidade descomedida. E isso está relacionado, em parte, com o uso da figura de linguagem hipérbole. É possível detectar exageros e invenções em diferentes etapas do jornalismo de García Marquez. Em alguns momentos, esses exageros e invenções estão presentes de uma forma abundante e aberta e, em outras, de forma dosada e velada. Este é um fenômeno que ainda é referência para muitos jornalistas e se enquadra no que chamamos de realismo mágico de García Márquez.

Para contar as histórias reunidas no livro Entretanto, foi assim que aconteceu, o jornalista do Estado de S.Paulo Christian Carvalho Cruz fez muito mais do que “colocar o pé no barro”. O jeito de falar, os gestos, os cacoetes, nada passou despercebido e tudo foi colocado no papel. Seria exagero? Muitas das histórias narradas apareceram primeiro como nota de pé de página, escondidas pelas fórmulas clássicas do jornalismo tradicional. Uma vítima de atropelamento em São Paulo, por exemplo, que poderia ser apenas mais um ponto na curva estatística, nas mãos desse repórter, se transformou na “Crônica de uma morte à toa”, texto que inclusive busca inspiração em Gabriel García Márquez.

20150401_141727 (2)

O escritor Gabriel García Márquez (esquerda) é fonte de inspiração para o jornalista Christian Carvalho Cruz (Foto: Divulgação)

 

Vamos analisar essa inspiração?

  • E a homenagem a Gabriel García Márquez feita pelos jornalistas da TVESTADÃO  em 17 de abr de 2014:

 

Boa leitura!!! 🙂

Caríssima Eliana

Amigos,

No post de hoje, proponho-lhes uma disputa: HARD NEWS versus LITERÁRIO. Em qual deles você aposta as suas fichas?

As regras do jogo são bem simples: dois textos do mesmo jornal, O Estado de São Paulo, ambos sobre a  inauguração da loja Daslu, em junho de 2005.

Que o jogo comece! 🙂

TEXTO 1 – HARD NEWS – A Daslu inaugura a sua nova loja em SP

Eliana Tranchesi inaugura Daslu ao lado de Geraldo Alckmin (Foto: Divulgação)

Eliana Tranchesi inaugura Daslu ao lado de Geraldo Alckmin (Foto: Divulgação)

TEXTO 2 – JORNALISMO LITERÁRIO –

Abre as portas a nova Daslu

Fred Melo Paiva / 12 de junho de 2005

A senhora já deve ter visto a gente. Estamos aqui embaixo. Se olhar da janela em direção à Rua Funchal, vai ver um beco comprido. Se subir no heliporto da loja, vai reparar nos nossos telhados. É tudo meio disforme, uma casinha se escorando na outra, que é para não desabar. A gente quase não usa tijolo nem cimento – só um ou outro mais afortunado é que conseguiu levantar uma parede, bater a laje, fazer um reboco. A maioria de nós, como a senhora pode ver, preferiu usar madeira – quer dizer, pedaço de pau e chapa de compensado. Se a senhora consegue ver direitinho aí de cima, vai achar que a gente é bem porco. Isso porque o nosso beco está sempre meio molhado, uma água suja que corre no meio da rua. Mas, olha, não é culpa nossa não. A gente é pobre mas é limpinho. O problema é que aqui não tem rede de esgoto e são mais de 200 barracos, espalhados pelo beco, e mais oito vielas. Já viu a merda que isso dá, né? A senhora deve estar estranhando a quantidade de fio que sai daquele poste e se divide em vários outros, interligando tudo. É gato, menina. Tudo gato. E tem cachorro também. A senhora consegue ver aquele pit bull branco? É o Dólar. E o rottweiller? É o Fidel. Agora veja só que confusão: gato com cachorro, pit bull com criança, o esgoto passando no meio, música alta, vizinho fazendo churrasco na viela, todo mundo na rua em pleno dia de semana. Pois é. Isso aqui tem nome. Chama favela. E a gente gostaria de apresentar ela à senhora como uma forma de lhe dar as boas-vindas: Eliana Tranchesi, favela. Favela, Eliana Tranchesi.

A gente sabe que quando a senhora abriu a sua loja a senhora fez um tour com o pessoal para apresentar o prédio. A senhora, não – a filha do governador. Então a gente vai fazer um tour com a senhora aqui na favela. Faça o seguinte: desça daí e venha de a pé. O nosso beco chama Rua Coliseu e é a primeira à direita depois da porta da Daslu. Bem na esquina, a senhora vai encontrar o Genivaldo Francisco, o Geninho. O Geninho é tomador de conta dos carros que ele estaciona no beco. As vagas são todas dele, e é por isso que ele possui um cone sempre à mão. Ele tem 44 anos e mora na favela há 36. Fica o dia inteiro sentado numa cadeira preta bem na entradinha da favela. Diz ele que na loja da senhora “só entra grã-fino, só carrão, BMW etc. e tal”. É que ele tá ali, sempre de olho. “O pessoal não é fraco, não”, ele fala. A senhora não vai ter problemas para identificar o Geninho. Ele só anda bem arrumado, sempre na estica. A senhora, que gosta de moda, pode até puxar conversa. Ele vai explicar para a senhora que gosta mesmo é de camisa social. E que está sempre de gravata “porque o pessoal que estaciona comigo é de um nível um pouco elevado”. O Geninho tem uma particularidade. Ele sabe essa história do Coliseu, que vem a ser o nome da nossa rua: “Diz que tinha um Coliseu lá nos Estados Unidos, ou por aí afora. Segundo eu tô sabendo, era onde eles pegavam uns evangélicos e davam para os leões. Isso se eu não estiver equivocado…”

O Geninho, senhora, o Geninho era “mindingo”. Foi viciado em crack durante dez anos. Daí, diz ele, “Deus me tirou do lamaçal do pecado, da pinga, da maconha”. Isso foi há sete anos, e portanto a senhora pode ficar tranqüila que o Geninho é igual o Fidel: ele não morde. Então pode ir entrando. À sua direita, logo na entrada do beco, tem uma barraquinha de pastel. R$ 1,30, e a senhora ganha um copo de suco de maracujá. Pode comer, que a gente garante. Porque a gente soube que no dia da inauguração da sua loja a senhora serviu uma comida lá que caiu meio estranha – parece que deu uma caganeira nos garçons, não foi isso? Pois é, aqui a senhora pode mandar ver o pastel do seu Venuto. Depois a senhora conta pra gente.

Vem vindo, senhora, vem vindo. Pode chafurdar o seu saltinho na lama que não tem nada, não. A próxima parada é o bar do Assis, à sua direita. (Aqui tudo fica à direita, porque à esquerda tem um muro que vai de ponta a ponta.) O Assis é o seguinte: Assis Monteiro da Silva, 47 anos, 25 de favela, 18 de boteco. “Quando eu cheguei aqui, era tudo alcalipto, tudo mango. Aqui bem no meio tinha um rio, e pra passar a gente punha umas tauba. Pra fazer os barraco aqui, nós é que aterremo tudo. Quando chovia, ih, mano…” Eu vou traduzir para a senhora. Alcalipto é eucalipto; mango é mangue; tauba é tábua; aterremo é aterramos. Agora, a gente soube que na loja da senhora tem um “Daslu Gym”, uma “Niketown” e um “dermocenter”. A gente também deu uma olhadinha na revista da sua loja, que um repórter trouxe aqui. Tem um negócio assim: “Getty girlie. Acessórios delirantes, desejos necessários e pequenos anseios femininos. Tudo é must have, sonho de wardrobe“. Tem uma outra: “Soup works. O melhor diner d hiver começa com um bom consommé. A seguir, composições ideais para uma entrée superbe”. Depois a senhora traduz pra gente, tá?

Quando a senhora encontrar o Assis (ele está sempre de bermuda e tem uma barriga grande), pergunta para ele como era a Daslu: “Aí agora onde tem o shopping, aí era uma lagoa, mano. Nós peguemo muito preá aí nessa Daslu, muito calango, umas abóbora grande. No tempo que a gente não tinha o que comer, comia os preá e os calango. Era legal, mano, era muito legal”. A senhora vai devagar com o Assis, porque ele tem umas idéias aí. “Eu tinha curiosidade de entrar aí nessa Daslu. Mas eu nunca entrei nem pode nóis entrar. Quando eu fico sabendo que tem lá um casaco de R$ 50 mil, lógico que dá uma revolta em nós tudo que é pobre. Porque a gente não arruma porra nenhuma, né, véio? E aí tem um casaco que custa o preço do nosso barraco? De tanto helicóptero, no dia da inauguração isso aqui parecia mais aeroporto. Pousava um, vinha outro; saía o outro, chegava um. O Brasil é assim mesmo.” Olha, a senhora desculpa essas idéias aí do Assis – afinal, entre um e outro preá, ele já consumiu alguma coisa lá na Daslu.

Pois é. A propósito dessa revolta aí que algumas pessoas sentem, a gente viu uma entrevista da senhora que tocou muito a gente. A senhora disse que a nossa elite está mudando, que está muito mais consciente da situação do País. A senhora disse também que o exemplo que a senhora dá é muito bom. A gente achou isso maravilhoso. Mas a gente reparou uma coisa, que eu vou te falar… parece até coisa de jornalista. Antes de cada pergunta, aparecia uma sigla: CC, de CartaCapital, a revista que entrevistou a senhora. Antes das suas respostas, aparecia outra sigla: ET. A gente sabe que é da senhora, Eliana Tranchesi. Mas fica parecendo que a senhora é de outro mundo…

A senhora é do mesmo mundo que a gente. Quer ver? Tá lá na entrevista: a senhora não estudou sociologia porque o pai da senhora tinha medo da senhora ser presa. E a senhora acredita que aqui na nossa favela tinha uma mulher que estava presa? Presa de verdade. É por isso que a senhora tem de apertar o passo e vir aqui no fundo do beco – a Fernanda acaba de ser libertada, saiu ontem em liberdade condicional. Então tá rolando um churrasco de “capa de filé com filé miau, salada de alface e maionese”. A senhora já ouviu falar na Fernanda. Fernanda Maria de Jesus, a Miss Penitenciária, eleita em novembro do ano passado. Ela cumpriu três anos de cadeia e não foi porque estudou sociologia. Foi tráfico mesmo, o que não deixa de ser isso aí.

A Fernanda é um dos 17 filhos da dona Amazina Maria de Jesus, de 63 anos, a moradora mais antiga da Favela Funchal – “veve aqui há 42 anos”. “Quando eu cheguei da Bahia, aqui tinha matagal e cobra. Não tinha luz e a gente usava lampião. Os caminhões de entulho jogavam lixo. Aí a gente limpou tudo e o meu marido construiu um barraco de madeira. Aí pegou fogo no barraco – nuns 40 barracos. A gente construiu outro.” O barraco da dona Amazina é um clássico aqui da favela: dois quartos embaixo, dois em cima e um banheiro. Dona Amazina, que ainda não sabe se o nome dela é com s ou com z, trabalhou sempre na faxina. É muito comum por aqui, da mesma forma que é muito comum o pessoal que trabalha na construção civil. A senhora sabia que 40 pessoas da favela trabalharam nas obras da Daslu? Quarenta dasluzetos.

Dos 17 filhos da dona Amazina, a senhora acredita que já morreram quatro? Não foi tiro nem foi droga – foi doença. A Marisete, que é uma das filhas dela, tem um barraco no fundo do beco. Nasceu na favela há 40 anos. Não nasceu no hospital – nasceu na favela em dia de chuva, “a parteira com a água batendo na altura do peito”. Marisete é a fazedora de churrasco, a promotora das noites de bingo, a dona do boteco mais festejado da favela. Ela jura que aqui embaixo é melhor do que aí em cima. Diz ela que “nós somos mais felizes porque a gente sai e faz o que quer”. Não sei se é o caso da senhora, mas diz a Marisete que vocês só “ficam presos dentro de casa ou dentro do carro”. Por falar em ficar preso, a Fernanda – a que foi Miss Penitenciária -, ela tem uma opinião sobre a arquitetura da Daslu. A gente achou importante falar para a senhora porque a Fernanda sabe muito bem do que está falando. Então não vá tomar a gente como mau vizinho. Mas a Fernanda acha que o prédio da Daslu “parece um pavilhão de cadeia, meio sinistro”. Agora, o pavilhão da senhora é dez, viu?

“Eu enxergo essa construção como uma hipocrisia. Como podem fazer uma coisa com tanto luxo, tanta grandeza, tanto dinheiro? Será que isso não constrange? Esses dois mundos separados só pelo muro, e nosso presidente não faz nada? Você tem que ter uma cabeça muito boa para dizer ‘aquilo não me pertence’. Você sabe o que é trabalhar o mês inteiro e não suprir o alimento da casa? Sabe o que é trabalhar com fome? O governador entrou lá. Por que não entrou aqui?”

Ih, senhora, a irmã da Marisete, a Rosana, parece que tem as mesmas idéias do Assis. Liga, não. Se aprochegue aí no churrasquinho da Fernanda. Espero que a senhora tenha gostado da nossa casa. Se precisar de alguma coisa, tamo aqui embaixo. É só a senhora chamar.

Depois da inauguração para convidados no fim de semana passado, a nova Daslu foi aberta ao público. Às 10 horas da manhã, havia apenas uma discreta fila de carros na entrada da loja. No fim do dia, grifes como Louis Vuitton já registravam boas vendas.

*

E aí? Já tem um texto preferido?

Vota aqui embaixo! 😉

O pescador sem rio e sem letras

Amigos,

Para a alegria de todos e felicidade geral da nação, o JORLITERATURA está de volta! Agora você já pode incluí-lo nas suas leituras semanais! 🙂

O primeiro post do ano traz um dos grandes nomes do jornalismo literário atual: Eliane Brum. Com a ajuda do fotógrafo Lilo Clareto, neste texto publicado há um mês no El País, a jornalista brasileira conta um dos capítulos da história de construção da Usina de Belo Monte, no Pará.

Você quer saber como é enfrentar advogados de uma obra bilionária sem sequer saber ler? Como é ficar à margem de si mesmo? A história é de Otávio das Chagas e da sua família.

Otávio das Chagas, o pescador (Foto: Lilo Clareto - Divulgação)

Otávio das Chagas, o pescador (Foto: Lilo Clareto – Divulgação)

“Otávio das Chagas tornou-se um não ser. A hidrelétrica de Belo Monte o reduziu a um pescador sem rio, um pescador que não pesca, um pescador sem remos e sem canoa. A ilha do amazônico Xingu, no Pará, onde cresceu, amou Maria e teve nove filhos não existe mais. Entre ele e o peixe não há mais nada.” (Leia aqui)

Boa leitura!!!