Mês: abril 2015

Perfil biográfico X Biografia

Amigos,

Vocês gostam de histórias? Há inúmeras maneiras de escrevê-las, mas vocês imaginam alguma sem personagens? Não, certo? Nenhuma história pode existir sem personagem. As formas de apresentar e caracterizar os protagonistas também são variadas, mas hoje falaremos sobre duas delas: o perfil biográfico e a biografia. Normalmente, esse tipo de texto cativa a maioria dos leitores porque, por meio dele, é possível descobrir informações curiosíssimas sobre a vida das pessoas. Apesar de muitas obras biográficas poderem ser comparadas a romances, de tão incomum e interessante que possa ter sido a vida do personagem, o gênero biográfico trata de narrativas não ficcionais.

Como vocês sabem, a polêmica sobre as biografias voltou a ser debatida no ano passado, quando a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 393/11, a chamada Lei das Biografias, que modifica o Código Civil e libera a publicação de “imagens, escritos e informações” biográficas de personalidades públicas, sem necessidade de autorização. Como diria o jornalista e escritor Ruy Castro, “O biografado dos sonhos precisa ser… filho único, órfão, solteirão, estéril e brocha – única maneira de o biógrafo ficar a salvo de encrencas”.

Ruy Catro conversou com muitas pessoas próximas de seu biografado, Garrincha. Citou todos se seção "Agradecimentos", mas não escapou de um processo (Foto: Divulgação)

Ruy Catro conversou com muitas pessoas próximas de seu biografado Garrincha e, mesmo tendo citado todos em “Agradecimentos”, não escapou de um processo (Foto: Divulgação)

Mas o perfil biográfico e a biografia são a mesma coisa?

Não. Ambos são narrativas sobre uma pessoa, com descrições, histórias de vida e relatos. Porém, há diferenças. Sérgio Vilas Boas, no livro “Perfis – e como escrevê-los” , diz que, enquanto nas biografias os autores têm que abordar os detalhes da história do biografado, nos perfis podem focalizar apenas alguns momentos da vida da pessoa. É uma narrativa curta tanto no tamanho do texto quanto no tempo de validade de algumas informações e interpretações do repórter. Já a biografia é um trabalho de pesquisa, que geralmente exige do biógrafo dedicação e pesquisa detalhista sobre a vida e a obra da personagem biografada.

Outra diferença é que o perfil é preferencialmente sobre vivos e a biografia é escrita, na maioria das vezes, sobre personagens que já morreram. Além disso, no processo de apuração e escrita de perfis, a relação entre o escritor e o perfilado é fundamental. O repórter precisa tornar-se íntimo. Deve-se levar em conta a importância, a essência, o momento, as opiniões e os episódios da vida do perfilado e também as percepções do próprio escritor que o acompanhou.

Gay Talese, estilo próprio nas roupas e na escrita

Gay Talese, estilo próprio nas roupas e na escrita

Gay Talese, por exemplo, é famoso por escrever perfis marcantes. O “Frank Sinatra está resfriado”, publicado em 1966 na revista “Esquire” e também presente em “Fama e Anonimato”, foi escrito sem o jornalista fazer uma entrevista sequer com o perfilado. Apesar de Talese não conseguir falar com Sinatra, ouviu dezenas de pessoas ligadas ao cantor e, através de depoimentos e observações, criou um perfil inédito do famoso. Em 2003, a “Esquire” republicou o perfil por considerá-lo o melhor da revista em 70 anos. Leia aqui o texto em português.

Edição de abril de 1966 da revista Esquire

Edição de abril de 1966 da revista Esquire

“Histórias bem escritas sempre terão leitores”, garante Talese. Veja a entrevista concedida à “TV Folha” em 2012:

 

Portanto, se você tem dificuldades na hora de escrever um perfil, isso é absolutamente normal. O processo de escrita foi doloroso até pra Talese. Em uma das passagens de “Vida de Escritor”, ele define escrever como “dirigir um caminhão à noite sem farol, perder o caminho e passar uma década em um buraco”. Inclusive, muitas de suas reportagens acabaram não conseguindo espaço em jornais e revistas por causa do grande tempo de apuração e finalização. Por isso são mais de dez livros publicados.  Ao contrário de outros autores do jornalismo literário, Talese não escreveu livros de ficção.

 

-> DICA DE LIVRO 😉

6374_1_20140801150221PERFIS: O MUNDO DOS OUTROS (Editora Manole, 2014) – “Perfis: o Mundo dos Outros”, do jornalista Sergio Vilas-Boas, reúne 22 perfis e um ensaio sobre o gênero perfil, publicados por próprio jornalista entre 1999 e 2014, em jornais, revistas e sites. Dentre os nomes, Jayme Sirotsky (empresário), Mara Salles (chef do restaurante Tordesilhas), Jaqueline Ortolan (comandante de jatos da TAM) e o ornitólogo Johan Dalgas Frisch. Entre os famosos, o ex-jogador Tostão, os escritores Paul Auster, João Ubaldo Ribeiro, Lya Luft, Gabriel García Márquez, entre outros. O livro se destina a estudantes de jornalismo e também ao público em geral interessados nos perfis apresentados.

 

BOA LEITURA!!! 🙂

 

Sou suçuarana

Amigos,

Vamos falar um pouco mais sobre técnicas literárias? A perspectiva do autor em relação aos acontecimentos de uma história é chamada de foco narrativo, o qual varia de acordo com os diferentes pontos de vista que o narrador assume no texto. O foco pode se manifestar de duas formas: o narrador se posiciona dentro da história como personagem (primeira pessoa) ou o narrador tem uma visão de fora do enredo e passa a ser observador onisciente e onipresente (terceira pessoa).

Mas e se o personagem for uma onça? Como o jornalista vai buscar ver o que ninguém viu, entender o que ninguém entendeu, sentir o que ninguém sentiu e compreender o que ninguém compreendeu se ele tem a difícil tarefa de ser uma onça? Como ele vai perceber o que não foi dito e imergir no ambiente desse personagem?

Em um dos textos mais característicos do estilo de Ivan Marsiglia, repórter do caderno Aliás do Estado de São Paulo, ele conta a história de uma onça que deu as caras na beira de uma rodovia. O fato, ao contrário do que era esperado, foi reconstituído do ponto de vista, e com o “linguajar”, da onça. Mais do que simplesmente informar, o jornalista foi capaz de entregar uma grande história ao leitor. Quer ler? Clique aqui.

Além de personagem do texto de Marsiglia, a suçuarana é também conhecida como onça-parda ou puma (Foto: Divulgação)

Além de personagem do texto de Marsiglia, a suçuarana é também conhecida como onça-parda ou puma (Foto: Divulgação)

 

-> DICA DE LIVRO 😉

CapaPoeiraBaixa-202x300A POEIRA DOS OUTROS (Editora Arquipélago, 2013) – “Sou suçuarana” é uma das vinte reportagens reunidas no livro “A Poeira dos Outros”, de Ivan Marsiglia. O repórter demonstra se interessar pelos mais diversos assuntos, mas nesta obra é possível identificar uma preocupação recorrente: contar histórias que revelem ao leitor episódios obscuros do passado, e também do presente, do país. Isso pode ser visto no perfil do juiz que, ainda em plena ditadura, condenou o Estado pela morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida em 1975, ou no relato da movimentada e violenta madrugada de sábado em um pronto-socorro na periferia de São Paulo.

 

Boa leitura!!! 🙂

 

Gabriel García Márquez X Crônica de uma morte à toa

Amigos,

Hoje é “Dia da Mentira” e o post tem tudo a ver com a data!

Vocês sabiam que em uma entrevista com o jornalista Daniel Samper, o famoso Gabriel García Márquez confessou já ter inventado notícia? Pois é!

Um desses episódios ocorreu em 1954, quando o jornal El Espectador enviou García Márquez para cobrir um grande protesto contra o governo em Quibdó e o jovem jornalista encontrou a cidade completamente calma.  Na verdade,  o correspondente local havia inventado fatos para a redação em Bogotá. Como García Márquez não queria voltar de mãos vazias, organizou um protesto para escrever a reportagem e tirar as fotos. Depois, a matéria foi publicada com o título História íntima de uma manifestação de 400 horas e, nela, García Marquez afirmou que o protesto durou 13 dias.

Essa é uma das principais características dos romances de García Márquez: a sua capacidade de inventar uma realidade descomedida. E isso está relacionado, em parte, com o uso da figura de linguagem hipérbole. É possível detectar exageros e invenções em diferentes etapas do jornalismo de García Marquez. Em alguns momentos, esses exageros e invenções estão presentes de uma forma abundante e aberta e, em outras, de forma dosada e velada. Este é um fenômeno que ainda é referência para muitos jornalistas e se enquadra no que chamamos de realismo mágico de García Márquez.

Para contar as histórias reunidas no livro Entretanto, foi assim que aconteceu, o jornalista do Estado de S.Paulo Christian Carvalho Cruz fez muito mais do que “colocar o pé no barro”. O jeito de falar, os gestos, os cacoetes, nada passou despercebido e tudo foi colocado no papel. Seria exagero? Muitas das histórias narradas apareceram primeiro como nota de pé de página, escondidas pelas fórmulas clássicas do jornalismo tradicional. Uma vítima de atropelamento em São Paulo, por exemplo, que poderia ser apenas mais um ponto na curva estatística, nas mãos desse repórter, se transformou na “Crônica de uma morte à toa”, texto que inclusive busca inspiração em Gabriel García Márquez.

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O escritor Gabriel García Márquez (esquerda) é fonte de inspiração para o jornalista Christian Carvalho Cruz (Foto: Divulgação)

 

Vamos analisar essa inspiração?

  • E a homenagem a Gabriel García Márquez feita pelos jornalistas da TVESTADÃO  em 17 de abr de 2014:

 

Boa leitura!!! 🙂