Como identificar um texto literário

Jarassaí Zamonari

Nosso último post na sexta-feira dia 08/04 (Vítimas de ataque a escola no Rio serão enterradas nesta sexta) não era um texto literário. Pode até ser um texto bem escrito, mas não tinha nenhum elemento que o identificasse como literário. A nossa intenção era justamente mostrar a todos que apenas pelo fato de estar no nosso blog, não significa que um texto obrigatoriamente seja literário, e mais, mesmo que seja literário não significa que seja perfeito.

Considerando esse fato, talvez alguns se questionem como fazer para diferenciar um texto bem escrito de um texto literário. Em um primeiro olhar pode mesmo não parecer tão simples, entretanto existem alguns elementos, que se identificados podem apontar para a existência de um texto literário. Vamos a eles.

Embora não seja obrigatório para textos literários, comece a desconfiar de títulos sem verbos, normalmente, hard news vem acompanhado de um título com verbo, como aconteceu na semana passada: Vítimas de ataque a escola no Rio serão enterradas nesta sexta. Um texto literário, por ter um pouco mais de liberdade na escrita, pode apresentar títulos diferenciados como aconteceu em Raios! Raios múltiplos! Entretanto, mesmo esses textos podem ter títulos como E Pinpoo foi sem nunca ter ido, que não apenas tem verbo, como já explica tudo o que a matéria irá contar.

O primeiro parágrafo da matéria também diz muito. Todos nós conhecemos o lead (o que, quem, onde, como, quando, por que) e sabemos que em um texto convencional o primeiro parágrafo responde a essas perguntas. Algum aluno comentou que os textos literários também parecem ter um padrão para o primeiro parágrafo, é como se o lead do literário fosse a descrição. Não necessariamente, mas de forma bastante recorrente é isso mesmo o que acontece. Então, também observem bem como é o primeiro parágrafo do texto que estão lendo.

Academicamente, falamos em sete pilares do jornalismo literário. Quanto mais deles estiverem presentes em um texto, maior a probabilidade de este texto ser literário.

HUMANIZAÇÃO: o texto tem como fio condutor personagens humanos, ou seja, a tentativa do autor é mostrar ao leitor os elementos mais corriqueiros, e também a força e as fraquezas de seu personagem, de forma a humanizá-lo.

“O Ribas gelou. No momento em que um colega esbaforido veio lhe comunicar que ‘o governador esta aí e quer falar com você’ ele sentiu um aperto em determinada parte do corpo. ‘Bah, me lasquei’, gemeu pra ele mesmo.” Em E Pinpoo foi sem nunca ter ido.

IMERSÃO: o autor vivencia aquilo que está escrevendo, o leitor percebe na narrativa que houve um trabalho de pesquisa, uma dedicação por parte do autor para chegar a detalhes que normalmente não aparecem na hard news.

Um exemplo é quantidade de casos que a autora coloca em Raios! Raios Múltiplos! e a busca pela pessoa que mais vezes foi atingida por raios, feita no Guinness Book, algo não convencional. “O guarda florestal Roy Sullivan que o dizia. Em 36 anos de carreira, foi atingido por sete raios. No primeiro, em 1942, perdeu uma unha. Em 1977, data do último, ganhou queimaduras no peito e no estômago. Sullivan morreu dali a seis anos, mas de amor. Ou por falta dele. Teria se suicidado por uma paixão não correspondida. O caso dele está no Guinness.”

ESTILO: a forma como estrutura e conta a história parte da percepção do autor a respeito do que será contado.

No caso do texto Raios! Raios Multiplos! a autora opta por colocar só no final do texto o que se tem de mais atual. “Ainda não se sabe se foi isso o que aconteceu com Maria Bueno, a funcionária do Parque Villa-Lobos atingida por um raio no domingo passado.”E ao longo do texto escolhe um estilo de escrita diferenciado. “Ali no ambulatório mesmo começaram a entabular uma paquera e, na velocidade de um corisco, acabaram por casar.”

VOZ AUTORAL: o autor se coloca no texto de alguma forma, o leitor percebe que ele aparece em meio a narrativa.

No texto Disciplina, tradição e amor, o tão citado “último parágrafo” nos comentários, nada mais é do que a colocação dos autores. “Vamos torcer, agora, para que os trabalhadores da usina, que certamente não a abandonarão, consigam, sem se expor à radiação, conter o perigo que agora atormenta não só o país como o continente americano e europeu, com o iminente perigo de os ventos levarem o material radioativo para lá.”

SIMBOLOS E METÁFORAS: para tornar o texto mais agradável e também diferenciado, o autor utiliza recursos da literatura como a linguagem conotativa para evitar repetições que cansaram o leitor, e assim tornar o texto mais atrativo.

“Relampiava como o diabo, era faísca de fio a pavio no céu. Mas Zé Vicente não acocorou para contemplar o cenário. Achou por bem fugir da água antes que ela encharcasse seu uniforme cinza. Bateu o ponto e acelerou o passo na magrela, os flashs tudo em riba, uma fila de eucaliptos atrás da cerca margeando o caminho de terra.” Em Raios! Raios Multiplos!

PRECISÃO DE DADOS: é a técnica jornalística presente no texto, o autor precisa ter uma apuração profunda e levantar o maior número de informações possível para compor seu texto.

“Ao ser capturado, Pinpoo estava a um quilômetro e meio do terminal da Gol de onde fora despachado 14 dias antes, ao custo de R$ 684 (fora os R$ 132 da caixa de transporte).” Em E Pinpoo foi sem nunca ter ido.

DIGRESSÃO: trata-se da colocação estratégica de dados complementares ao texto principal, provoca uma quebra no ritmo da narrativa. Se o texto literário é considerado um mergulho horizontal, pois aprofunda a história, a digressão é o nado vertical que busca a relação dessa história com outros campos.

“Parou até de formatar os seus slides românticos, aqueles power points que circulam na web trazendo ensinamentos estranhos, poesias ruins, construções na segunda pessoa do singular e musiquinhas tristonhas. (Você certamente já recebeu um, mas não vá odiar a Nair por causa disso; odeie o amigo que te mandou.) Os slides são o principal passatempo dela – depois de Pinpoo. Já fez mais de 500.” Em E Pinpoo foi sem nunca ter ido.

Para finalizar, apenas relembramos que jornalismo literário tem esse nome por que mescla a técnica de apuração jornalística com a preocupação literária para a estética da escrita. Procurem nos próximos textos que serão postados daqui para frente esses elementos que identificam o literário e façam em seus comentários esse exercício de identificação

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14 comentários

    1. Obrigada Christian por sua visita ao nosso blog, como auxiliar da professora Cyntia e responsável pelas atualizações deste blog, fiquei muito feliz com seu retorno. Para os alunos/usuários do blog que ainda não associaram o nome a pessoa, o Christian é jornalista do Estado de S. Paulo e autor do texto E Pinpoo foi sem nunca ter ido, tema de análise no nosso blog há algumas semanas.

      1. Pessoal, esse comentário do Christian foi feito semana passada num post antigo que a Cyntia fez no ano passado, mas como é uma indicação de livro, estou copiando e colocando aqui para todos teram acesso de forma mais rápida…
        Christian Carvalho Cruz disse
        abril 20, 2011 às 10:13 pm e
        Só mais um pitaco, pois gostei muito do blog (inclusive de uma ou outra bordoada dada na minha matéria do Pinpoo): tem um livro chamado “20 perfis e uma entrevista”, do Luiz Fernando Mercadante – grande mestre no tema, um dos maiores no nosso país. Acho que, hoje, só em sebo. Vale a pena procurar.
        Abraços a todos,
        Christian

  1. Obrigada, Jarassaí por explicar e esclarecer os sete pilares do jornalismo literário. Apesar de ter uma boa noção de como diferenciar um texto hard news do literário, os pilares contribuem para que possa ser feita uma melhor análise do texto e também melhor compreensão.
    Em relação à pegadinha da postagem anterior, apesar de ter “sacado” que o texto não se tratava de jornalismo literário, retiro o que disse em relação ao espaço oferecido para ele no blog, já que não sabia que também poderiam aparecer notícias desse tipo por aqui.
    Boa sacada!

    1. Bem Laís, na realidade a idéia do blog não é mesmo ter hard news entre suas postagens. O post do massacre apareceu mesmo para confundir e também para chamar a atenção para um acontecimento que vinha sendo amplamente divulgado na mídia. Teve também o intuito de preparar o terreno para essa postagem mais explicativa, sobre o que procurar e identificar nos textos analisados.

  2. Muito bom este post! Tenho certeza que nos ajudará a identificar melhor os textos de jornalismo literário e principalmente fazer comentários mais pertinentes quanto a estrutura dos textos.

    1. Pois é Beatriz, a Cyntia e eu percebemos que os comentários, embora tentassem identificar os pontos pricipais dos textos, ainda não apresentavem elementos técnicos, então eu fiz esse texto, baseada nas aulas de literário que tive no ano passado, para auxiliá-los nesse processo. Espero ter ajudado.

  3. Assim como comentei no texto em questão, não achei que fosse literario, pois explicava de forma objetiva elementos do mjassacre de realengo. A única característica que me confundiu, foi a explanação dos gostos e sentimentos de algumas crianças que foram vítimas do massacre. Dessa forma, com a explicação feita pela Jarassai, os pilares do jornalismo literário ficaram mais claros, a ponto de poder melhor diferenciar um texto literário do hard news.

    1. Em um texto de tema tão duro como o massacre ocorrido no Rio, contar quem eram as crianças, embora seja triste, ajuda a tornar o texto menos árido. Ainda assim, não chega a ser a tão almejada HUMANIZAÇÃO descrita nesse post.

  4. Não tinha comentado no texto anterior, mas ao ler me confundi bem em alguns aspectos. Os pilares ajudam a identificar certas coisas, algumas características.

    Muito legal!

    1. Espero ter ajudado a todos com essa postagem. Que as confusões diminuam e os comentários aumentem daqui para frente…

  5. Gente, eu não entendo digressão como isso. Ou este foi um mau exemplo. Entendo que digressão seja buscar explicação em outros lugares sobre determinado assunto e não se pautar somente no que o fato e a personagem oferecem. Tou muuuito errado? Coloquem-me no chão novamente. 🙂

    1. Eduardo, você não deixa de ter razão. Ainda assim, faço a defesa de meu exemplo, pode até não ser o melhor dos exemplos, mas é sim uma forma de digressão, afinal a descrição do que são os slides melosos não passa nem perto do tema da metéria, é um dado a mais sobre um dos personagens. Fica minha proposta para que você e os outros colegas encontrem nos textos analisados por nós, outros exemplos mais profundos de digressão, que extrapolem tema e personagens. Obrigada pela sua observação.

  6. Gostei bastante desse “teste”, esse texto me traz informações úteis e simples exemplos, nos quais poderei aplicar em livros literários, ou não e textos diversos.

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