Disciplina, tradição e amor

Cyntia Andretta e Jarassaí Zamonari

Tokue estava triste nesta semana. Formada em Publicidade e Propaganda pela PUC-Campinas, Tokue Isabel de Oliveira Minami Buso, 31, é criativa, como já era de se esperar com a formação que escolheu, e extremamente bem-humorada. Difícil vê-la triste daquele jeito. Um ar pesado caía em seus ombros e os mais sensíveis perceberiam isso.
Ela disse que havia sonhado, na noite de 10 para 11 de março, que Cristina (MG), sua cidade natal próxima 35 Km de Itajubá (sul de Minas), havia sido inundada. Acabou perdendo o sono e foi assistir TV… Lá estava a notícia do terremoto de magnitude 8.9 que assolou o Japão na última semana.

Tokue tem cinco tios, irmãos do pai, no Japão. “Um em cada cidade, todas razoavelmente longe da área atingida”, conta. Conseguiu falar por telefone com uma das tias, Yasue Minami, e soube: estavam todos bem! Alguns parentes que residem em Tóquio e proximidades foram para a casa de uma tia em Hiroshima, devido ao risco de contaminação radioativa cada vez maior, mas ufa… todos estavam bem.

De onde vinha a tristeza de Tokue, então? Ela deveria estar feliz que todos estão bem. Vem da descrição da tia do que está ocorrendo desde então.

Não há roubo, saque, tumulto, mas há falta de comida, combustível e cobertor. As crianças e as pessoas de idade estão ainda mais vulneráveis com o frio que durante a noite tem variado entre 0 graus Celsius e -5 graus Celsius  nas cidades japonesas, preparadas para isso somente com o sistema de calefação. Mas sem a energia que vem das usinas nucleares, nada de aquecimento…


Outra preocupação é onde os japoneses vão colocar todo o lixo que se acumulou com o tsunami. Não há espaço na ilha. “Minha tia tem um apartamento em um prédio que é subterrâneo, para se ter ideia! Falta espaço!”.

Perguntei, então, com o instinto bem brasileiro: “Tokue, vamos fazer uma campanha para levar comida e agasalho para eles. Pergunta para seus parentes se eles não querem vir para cá!!” Já estava oferecendo minha casa (imensa de 80 m2) para as cinco famílias que viriam de lá. Tinha certeza de que outros amigos também me ajudariam a achar um abrigo para todos eles.

“Não adianta, já fiz isso também. Descendo de uma linhagem de samurais, faço parte da 9ª geração desses nobres guerreiros. Sei da força da tradição, do senso de honra, da gratidão, do valor da palavra, do exercício contínuo em busca da perfeição, da auto-disciplina e auto-controle. Meu pai só veio para o Brasil porque não queria ser mais uma preocupação para meu avô, que foi combatente na II Guerra Mundial. Ele quis que minhas tias e outros irmãos tivessem maiores chances de seguirem uma formação, porque em época de guerra a situação estava muito difícil. Os japoneses mais antigos, tradicionais, sentem em deixar a pátria… por isso se mostram resistentes. Querem contribuir, de alguma forma, com a superação do país. Não querem estar lá só quando tudo está bem.”

Só me sobrou dizer: “Tokue, tenho certeza de que o Japão vai se erguer novamente”.

Os samurais eram considerados da nobreza, pois eram guerreiros que defendiam os senhores feudais em troca de terras para prover seu sustento. Um povo de tradição milenar, de disciplina e comprometimento como esse, certamente reconstruirá sua nação.

Vamos torcer, agora, para que os trabalhadores da usina, que certamente não a abandonarão, consigam, sem se expor à radiação, conter o perigo que agora atormenta não só o país como o continente americano e europeu, com o iminente perigo de os ventos levarem o material radioativo para lá.

Veja nosso album de fotos: Japão

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14 comentários

  1. Gostei muito da descrição inicial do estado emocional de Tokue. Deu um ar bem literário. As informações do terremoto também são bastante elucidativas e incrementam o texto, tornando-o mais crível. Considero, no entanto, que a foto das duas ficou meio deslocada, uma vez que parece ser uma mera imagem familiar e não contém objetos e/ou ambiente com capacidade de informar algo.

  2. A tragédia que aconteceu no Japão há cerca de uma semana é descrita no texto através de aspectos subjetivos e objetivos. A parte subjetiva é marcada pela descrição dos sentimentos da garota Tokue pelos parentes que moram no Japão e a objetiva é marcada pela forma interessante com que a autora expõe dados e informações acerca do que está acontecendo no país após a tragédia, tornando o texto uma mescla da magia da literatura com o objetividade jornalística.
    O texto é um exemplo claro do que disse Wolfe sobre o jornalismo literário. Segundo ele, é preciso ir além da descrição, criar personagens e descrevê-los interiormente. Mas é preciso cautela ao redigir uma reprotagem literária – o texto não pode “escapar” da realidade, fugindo do propósito do Jornalismo.
    Assim , a postagem não fugiu as regras. É interessante ao leitor, de forma a trazê-lo para dentro da tragédia do Japão através da visão da personagem Tokue e dos dados jornalísticos.

  3. Bem bacana o mescla de estado emocional da personagem com a objetividade tão falada e “procurada” por nós. Então, no meio de tantos textos falando sobre o mesmo assunto, achar um legal e lê-lo do começo ao fim foi difícil para mim, mas esse não me entediou ou só fez com que eu passasse os olhos. Vejam só, é essa a pegada bonita do literário, pelo menos para mim. Pegar uma personagem, descrever o fato e ir muito além dele com as impressões subjetivas e objetivas dela (a Tokue) é a graça fantástico desse jornalismo. Só pontuo uma questão: o último parágrafo é jornalismo, é campanha, é chamado pra oração…? É… o quê?

  4. O texto trata sobre a tragédia ocorrida no Japão. O abre do texto falando sobre a tristeza de Tokue, porém a foto escolhida pra matéria não casa com ele. São utilizados elementos subjetivos pra mostrar os sentimentos da moça com relação aos parentes que moram no Japão. Já os elementos objtivos que aparecem no texto são usados para explicar sobre algumas informações do que está se passando agora no Japão, após o caos. O jornalismo literário é usado de forma a explorar um personagem que conseguiu falar com os parentes, mas o desespero e as preocupações continuam ainda maiores. O texto não fugiu a realidade, não contêm elementos fictícios.

  5. Através da história de Tokue foi possível compreender melhor com está a situação dos japoneses nesse momento e nos aproximou mais da realidade, não ficamos apenas em dados e números frios, mas conhecemos o sentimento de quem está vivendo a situação. Além disso, pude confirmar o que já desconfiava: o povo japonês é forte e guerreiro, não se abate em momentos de dificuldades.

  6. O texto literário permite que o autor trasmita, além da informação, caracteristicas sentimentais do povo Japonês. Lendo o livro Hiroshima (para a disciplina) pude perceber as mesas caracteristícas descritas por Tokue. Diante da tragédia os japoneses são extremamentes sensatos e, de certa forma, frios. Na descrição do livro havia poucas pessoas que choravam, resmungavam ou se desesperavam, com algumas exeções devido ao tamanho da tragédia (bomba atômica). Essa atitude os permite uma fuga mais eficaz aos prejuízos decorrentes dessas situações.

  7. Outra coisa, concordo com o Felipe no que diz respeito a foto das duas. Por mais que o jornalismo literário fuja um pouco da informação massante, no caso (a foto das duas) não existe nada que justifique sua publicação.

  8. O sentimento que o texto traz, faz com que o leitor fuja um pouco da rotina jornalística, mostrada na televisão e jornais. Colocando-o na situação real da tragédia. Muito bom!

  9. Escrever sobre um assunto tão divulgado na grande mídia é um desafio. Encontrar um novo enfoque, novos dados e casos interessantes que rendam uma boa reportagem é trabalho de samurai. A utilização do jornalismo literário, neste tipo de acontecimento dá muito mais vida para o fato e aproxima o leitor do drama acontecido tão longe. Acredito que o drama familiar e a disciplina dos japoneses faz com que o leitor chegue até o fim do texto sem perceber. No entanto, são tantas as histórias como estas que vem à tona em uma tragédia, que sinto que a história de Tokue pode ser replicada milhares de vezes. Talvez fosse interessante adicionar maiores particularidade à história.

  10. Embora o texto pareça simples, achei de uma complexidade incrível! Pois mistura citação em primeira pessoa com um texto mais literário, sem deixar de dar informações mais especificas e necessárias para situare o leitor sobre a realidade. Além de expressar a emoção da personagem, o que dá mais vida e fluidez ao texto.

  11. A narrativa em terceira pessoa é um dos pontos que eu mais gostei do texto, o autor parece íntimo do personagem, mas sem perder o foco jornalístico, salvo o último parágrafo, como ressaltou o Bonine. Pelo contrário dos outros comentários sobre as fotos, eu achei que a única foto pertinente para esse texto foi a imagem em que Tokue está com a sua tia. As outras imagens eu considero desnecessária porque o mapa é praticamente uma reta mostrando o que está no texto, valeria um mapa se o caminho fosse uma surpresa, além do outro mapa, que mostra a temperatura, estar bem confuso e sem legenda para explicar com mais detalhes a informação contida na arte. Acho que faltou uma imagem exclusiva e curiosa da destruição para reforçar o que o autor descreve.

  12. O texto está muito bom! Confesso que me emocionei na parte em que é explicado a tradição e a honra dos japoneses em enfrentar o desastre ao invés de fugir dele. Foi como se Tokue estivesse me contando aquilo. Emocinante!
    Concordo com Eduardo sobre o último paragráfo, não dá para entender o que ele é. Entendo que está acrescentando informação sobre os problemas que serão trazidos pela radiação, mas acredito que a forma como foi colocada não foi clara o sufuciente , parecendo um pedido de ajuda ou oração.Salvo este detalhe, o texto é muito confortável, o que faz a leitura fluir naturalmente.

  13. O texto é pertinente ao momento que o japão vive, ou seja, factual, ao mesmo tempo em que carrega um tom subjetivo, graças às impressões de Tokue. Gostei da caracterização do povo oriental (pois não apenas os japoneses têm os traços apontados pela personagem), mas não me soa interessante usar apenas uma personagem, mesmo que o assunto possa ser esgotado apenas com seus depoimentos. O final não ficou legal. É uma espécie de moral da história? Acho que essa técnica funciona com outros gêneros literários, mas não no jornalismo.

  14. Bem, vamos aos esclarecimentos a respeito desta postagem. De fato, como alguns alunos perceberam, esse texto não é o máximo que se pode esperar de um texto literário. Faltou mesmo um pouco mais de imersão e outros personagens que complementassem a história. O que aconteceu foi que naquela semana tanto os veículos quanto os jornalistas pareciam estar mais preocupados com a produção hard news, de forma que não localizamos nenhum texto literário para postar. Optamos por produzir o texto, cientes de que apenas com o depoimento de Tokue a produção poderia não ficar completa, entretanto esta se apresentou como a única opção no momento. De forma a complementar um pouco mais, optamos também por informação visual através das ilustrações presentes no texto e também das fotos no link JAPÃO ao fim da página. Tudo isso na tentativa de passar dados precisos e ilustrar o que estava acontecendo. A foto de Tokue com a tia se justifica exclusivamente por serem as personagens apresentadas, e o último parágrafo que parece ter soado de forma estranha para muitos, é a voz autoral presente no texto, que conta também com a humanização, precisão de dados e alguma digressão. Para aqueles que estão lendo o livro HIROSHIMA, e mesmo para quem não está, Cláudia Trevisan retrata ao menos duas histórias de sobreviventes, só que referentes ao terremoto de 11/03, chama-se Vozes dos sobreviventes: http://blogs.estadao.com.br/claudia-trevisan/.

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